quarta-feira, 2 de Dezembro de 2009

Para que da Memória se faça História

Apontamentos de um soldado em África - 16
O Óbito
Tinha acendido as velas do altar-mor, quando à porta da pequena e pobre igreja ouvi um reboliço acompanhado do correr de fechos. Preparava-me para receber a sagrada comunhão, e o sacerdote já se encaminhava da sacristia para o altar, a fim de satisfazer o meu pedido. A missa era de réquiem, e apenas seria rezada dali a meia hora. Havia falecido no hospital da vila uma pobre mulher nativa, a quem o enfermeiro, cristão, baptizara poucas horas antes da morte a que a tinha levado uma doença não cuidada a tempo. Por isso, eu pedira ao padre que me ministrasse, antes, a comunhão, pois me causava atraso esperar pela missa de corpo presente dessa pobre mulher, a quem Deus se tinha aberto nos derradeiros momentos da vida.
Mas, ao olhar para trás, a saber, num gesto espontâneo e mecânico, o motivo do barulho, vi com espanto que um grupo de pretos, homens e mulheres, carregavam uma urna para dentro da igreja. Traziam consigo duas cadeiras, para nelas apoiarem o caixão, ao mudarem de mãos, pelo caminho. Dirigi-me ao pároco e contei-lhe rapidamente o acontecido; e, um e outro, não pudemos conter o riso, tão inesperado era o que se estava a passar. Eram oito horas e meia da manhã. O funeral estava marcado para as nove. Mas, talvez pensando poupar trabalho ao ministro de Deus, talvez impacientes com a lenta aproximação da hora, ou talvez ainda para adiantar tempo, não esperaram que o sacerdote fosse levantar o corpo, e vá de levá-lo quanto antes para a igreja. No fundo, essa pobre gente procedera tal quanto a sua ignorância religiosa o permitira, tanto mais que alguns dos elementos do grupo deviam ser pagãos, como pagã fora quase até ao fim da vida a defunta ali presente. Refeito do incidente, o sacerdote (capelão militar acumulando as funções de pároco) resolveu então, para minimizar os males, celebrar a missa e, terminada esta, acompanhar o préstito ao cemitério. Mas não findara por aí o dia...
À tarde, nova turma de gente se apresentou à porta da igreja. Era outro funeral. Mas, desta vez, tratava-se de uma criança que não era baptizada, e, portanto, não podia ter cerimónias religiosas. E o grupo dirigiu-se, então, para o cemitério municipal, do mesmo modo como até ali viera. Já na minha crónica anterior fiz referência ao problema pastoral, missionário, desta terra. Os casos atrás narrados elucidam em certa medida a sua gravidade. Os nativos estão habituados a enterrarem os seus mortos à sua maneira. Quando há óbito, há comida e bebida, e isto torna-se frequentemente uma ocasião de diversão para aqueles a quem a dor menos aflige. As famílias visitam os enlutados e levam panos ou mantas que servirão para cobrir o morto, que neles será embrulhado e metido no esquife. As mantas que sobram são distribuídas, depois, pelos doridos. .Não admira, assim, que, habituados aos seus costumes pagãos, os nativos tenham procedido de maneira tão simplista. De manhã, o funeral era talvez um dos muito poucos que levavam padre, e os indígenas acharam que estavam fazendo uma grande coisa, ao transportarem, sem mais nem menos, o corpo para a igreja, ao encontro do sacerdote; de tarde, pretenderam, sem qualquer fundamento, seguir o exemplo do primeiro funeral, não sabendo, sequer, a diferença que aquele punha em plano superior (em termos religiosos). À tarde, era o enterro de um não baptizado. Teria sido diferente, se, seguindo os conselhos já dados pelo pároco, este tivesse sido solicitado na hora derradeira. Quanto estas almas pedem missão!...
Já expus, também, no mês passado, as dificuldades que atormentam o pároco, impotente para tão grande e tão diferenciado rebanho. Capelão militar, ele irá embora daqui a alguns meses. Outro virá, na melhor das hipóteses, mas outro, diferente. Depois, ainda outro… Oh! Como é grande a seara, e os operários tão poucos e sem meios!...
A hora que passa é a “Hora dos Leigos”. Não de alguns... de todos! De todos os cristãos, para que, unidos à Hierarquia, façam renascer a Igreja. Na África, o tempo urge. O terrorismo não é mais que um indício de que vamos atrasados! Estamos numa época de velocidades. Tudo corre, e também correm os conquistadores da pessoa humana. Nós, portugueses - todos -, temos de olhar de frente o problema. A gente do Ultramar pede, mais do que nunca, muitos e santos missionários. Mas, enquanto eles não chegam, que todo o branco traga uma cruz na mão, no peito uma chama ardente de caridade, na alma uma formação sã e arrebatadora. Este ideal está, porém, longe de ser atingido...
Graças a Deus, que já há missões de Leigos, em Angola. Amplos são os resultados. Mas, é preciso mais!...
Com os capelães militares, o problema missionário, agravado ao máximo com o terrorismo, foi em parte atenuado. Mas a solução é precária, e a isto conduz o carácter nómada destes sacerdotes. E, ainda, os capelães militares veriam o seu trabalho mais frutífero, se a seu lado trabalhassem os leigos com igual ânsia de apostolado.
De todos os cantos do torrão metropolitano saem jovens para as fileiras do Exército, para que no Ultramar mantenham íntegra a nossa Pátria. Importa prepará-los, para que sejam ao mesmo tempo soldados do Exército de Cristo. A Acção Católica tem aqui um grande campo de trabalho... E todos nós, todos vós, os que ficais. Orai!
Ambriz - Angola, Julho de 1964

terça-feira, 3 de Novembro de 2009

Para que da Memória se faça História

Apontamentos de um soldado em África - 15
Novas terras, novas gentes
O soldado em Angola quase se assemelha ao cigano, que, nunca estando bem numa terra só, procura continuamente novas paragens, em cumprimento do nomadismo que lhe está no sangue. Obedecendo a ordens superiores, eis que, também, não podemos nós ganhar raízes num único torrão, pois é mister que novos horizontes busquemos, a fim de que nos seja dado um relativo e legítimo bem-estar, após tempos passados em sacrifício, ou, saindo de uma zona mais ou menos calma, atendamos ao chamamento de outras onde se reclamem novas forças e frescos ânimos. Isto permite ao soldado melhor conhecer esta Angola que o chamou e mais aprenda da maneira de ser da sua gente, que, de região para região, tão manifestas diferenças apresenta.
Ficaram para trás essas matas tão frondosas como cheias de perigo, onde sangue dos nossos foi vertido, a selar para sempre a portugalidade destas terras; ficaram os penhascos agressivos e as picadas poeirentas e traiçoeiras; ficaram as emboscadas assassinas de uma guerrilha alimentada pelo ódio e pela subversão internacional comunista. Nova terra, agora, nos acolhe, mais atraente e mais calma, bafejando-nos com a brisa do oceano, no cair das tardes quentes e multicoloridas deste céu africano.
Novas terras... novas gentes! Novas gentes… novos problemas!
Enquanto que, antes, ocupávamos uma região praticamente abandonada, esta apresenta uma população mais ou menos numerosa, com brancos, mestiços e pretos. O habitat do aborígene, aqui, não se diferencia muito do tradicional. A sanzala situa-se na periferia da vila, ou junto ao mar. Não tendo a mata para se dedicar ao café e à caça, os homens ocupam-se da pesca e no trabalho das salinas. As mulheres, contudo, continuam a tratar das lavras (hortas), onde homem não mete mão; elas encarregam-se da agricultura, para cujo trabalho não causa impedimento o filho que trazem às costas ou que, enchendo-se de terra, brinca a seu lado. E é de certo modo consolador ver esses bocados de solo arenoso começarem a verdejar poucos dias após a sementeira, como retalhos pluriformes na extensa zona plana junto à praia. Deitaram à terra milho e jinguba (amendoim), utilizando ainda processos rudimentares, primitivos, mas as sementes hão-de germinar e contribuir grandemente para as suas subsistências.
O problema pastoral é de acuidade extrema. Grande parte da população nativa não é baptizada, embora se verifique, neste campo, uma tendência bastante acentuada e positiva por parte dos naturais. Mas não é fácil, como à primeira vista pode parecer, aproveitar esse movimento em procura da pia baptismal. Impunha-se organizar o catecumenato, cuidar mais da seara; contudo, o trabalho é sobremaneira pesado para o pároco local, cuja função é desempenhada em acumulação pelo capelão militar, que além das suas ovelhas paroquiais tem a tropa, espalhada por várias locais distantes, e que de modo algum poderá abandonar.
Alguns problemas de ordem moral, e de certo modo graves, se levantam também entre a juventude indígena, particularmente nas raparigas. A não ser a catequese, e, a este tempo, em precárias circunstâncias, nenhum movimento de apostolado existe na comunidade. E à juventude, a não ser a Igreja, mais ninguém pode aqui ensinar um caminho de plena realização de vida. A gente africana - já o disse nestas crónicas - tem pouca experiência dos padrões da nossa civilização, e, por outro lado, possui sentimentos delicadíssimos. O contacto com o europeu, quando este tem mais defeitos do que qualidades a pesar no prato da balança, pode ser-lhe, e é geralmente, prejudicial. Pode destruir-se o seu sistema tradicional de vida, sem integração natural num outro que supere o antigo. A facilidade com que, por isso, o indígena é influenciável pode permitir o caos moral... e é muito triste quando isso acontece!
O terrorismo, com o abandono de algumas fazendas e a consequente delimitação das áreas de livre circulação, trouxe algumas dificuldades em matéria de alimentação. Tal ferrete deixou também as suas marcas no quadro humano desta região, facto de que as crianças são a sua mais viva e negativa expressão. Não fique o leitor desta crónica, e por ela, com ideias aterradoras sobre o que nos cerca. Não! Situações destas encontram-se em todo a mundo, e seria criminoso escondê-las. Importa encará-las de frente e combater os males pondo os problemas em equação... Mas estas equações sociais não se podem submeter unicamente aos números da Estatística; a incógnita continuará persistente, se a caridade de cada um nós, em todos os prismas porque pode ser vista, não for uma realidade activa. Tal como noutros sítios já, vi o preto pedir trabalho e executá-lo como o branco, ou melhor. Daqui se prova, ao contrário do que muitos pretendem fazer crer, que o africano não é um preguiçoso por natureza. Ele trabalha, se as suas necessidades lho determinarem, e com ele podemos contar para a restauração da terra que ele e nós amamos, irmanados num mesmo ideal cristão o patriótico.
Eis que encontramos, por conseguinte, um novo campo de luta. Luta que já não é propriamente de armas, mas de corações e de almas. Que Deus nos ajude a cumprir a nossa missão durante estes meses que aqui estivermos: a trabalhar, se necessário mesmo para além das nossas forças.
Ambriz - Angola Junho de 1964

Para que da Memória se faça História

Apontamentos de um soldado em África - 14
Moralidade
Há tempos, li, numa revista angolana, um protesto escrito pela sua própria Direcção contra uma carta que alguém, com razoável bom senso, dirigira àquele órgão de imprensa, desaprovando certas ilustrações mais ou menos mundanas que o mesmo publicava de quando em vez. Li... e senti tristeza ao tomar conhecimento do critério pouco seguro e capcioso que essa revista utilizava para justificar as suas gravuras.
Não é sistema novo, explorar o sensualismo do leitor para que qualquer publicação atinja grandes tiragens. Infelizmente, a formação moral da nossa gente parece ter entrado em decaída. E se tal se pode afirmar da gente já madura, é trágica verdade que a nossa juventude sofre horrivelmente de idêntico mal. Assim, o melhor meio que qualquer editor menos sério tem a utilizar para obter grandes vendas das suas obras é “prantar” nas suas capas espampanantes figuras manchadas pelo indecoro moral, e célebres, muitas vezes, pelos escândalos mais escabrosos.
Só uma consciência empedernida poderá ficar insensível perante tais agentes de corrupção e, até, negar os seus efeitos tão deletérios. Só uma mente pervertida pode atribuir a esses manejos do mafarrico uma benéfica manifestação da mais pura arte.
Atravessamos um período acutilante, neste aspecto da vida. A pornografia, descarada ou camuflada, entra por todas as portas e em toda a parte. Vozes diversas têm clamado por todos os cantos contra esta invasão terrível. O alarme chega a tocar nos próprios estabelecimentos de ensino.
Também em Angola a campainha tem de soar. Quem pode – e todos podemos - deve trabalhar contra esta arremetida do inimigo.
Alguém disse, há muitos anos: “A corrupção há-de penetrar de tal modo em vosso meio, que, quando os vossos exércitos forem chamados a intervir, eles se desmoronarão. Não há dúvidas, pois, quanto à táctica inimiga. O materialismo marxista penetrará por qualquer forma e com os meios mais apropriados. A nossa juventude, uma vez pervertida, entrará nas fileiras já vencida e sem forças para segurar as armas. E mesmo sob a farda, os ventos da imoralidade não deixarão de a sacudir, porque eles nada poupam.
Há quem chame à pornografia “motores de arranque”. Talvez, à semelhança de imoralidades praticadas em algumas guerras, com o fim de levantar o ânimo à soldadesca vencida pelo tédio!...
Ah!... Se todos os exércitos tivessem um Nun'Álvares por chefe!... Que outro lenitivo mais forte pode um soldado cristão escolher, se não o seu Cristo, que no madeiro resgatou o mundo?!... Foi a Cruz que se ergueu sobre a terra, e não o abismo da ignomínia e da devassidão!
Clamemos, clamemos sempre! Lutemos, lutemos sem tréguas! Rezemos, rezemos com piedade! O inimigo avança traiçoeiro e quer minar os alicerces da nossa integridade. Urge abrir os olhos aos incautos. É grande mister sanar o ambiente conspurcado pelas mais corrosivas produções, e, sobretudo à nossa juventude, mostrar a luz deslumbrante da verdadeira moralidade, sem a qual a vida é caos insuportável.
Angola - Maio de 1964

Para que da Memória se faça História

Apontamentos de um soldado em África - 13
Da guerra ao lar amado
Entrei naquele enorme charuto alado... Quase abafava sob o calor do seu ambiente fechado.
Lá fora, uma multidão se acotovelava ainda, em disputa de prioridade na estreita passagem da escada que dava acesso ao boeing. Quase parecia impossível como dentro de escassos minutos aquela mole imensa se tinha acomodado toda nas cadeiras suaves do avião. Mais uns segundos, e Luanda ficava de baixo dos meus pés... para, em breve, ir passando para trás mais e mais, até se perder no fundo do horizonte.
O ar tornava-se agora mais fresco e, mais tarde, ficou, mesmo, frio, a ponto de me fazer doer os pés. Inclinei as costas da cadeira para trás. Levantei os olhos e, pela escotilha, reparei que lá no fundo... muito fundo já, a terra fugira até quase se dissipar. Passáramos já Ambriz, Ambrizete, St. António do Zaire... - pequenos desenhos na face distante do Globo. Angola ficava...
Recostei-me e respirei fundo. Parecia um sonho, mas era realidade: depois de quinze meses, ia, enfim, voltar a ver aqueles rostos queridos que deixara com os olhos marejados, naquela doca de Lisboa. Dentro de horas, ao noitecer, apenas, poria pé firme em Lisboa, e, depois, rumaria ao Norte, em busca do lar amado. Oh!, Deus! Obrigado! Que mais pode um soldado desejar, fora do cumprimento do sagrado dever, do que voltar à terra em que nasceu, e beijar aqueles que o trouxeram ao mundo?!...
Ainda havia poucos dias desde que a morte rondara de novo pelos nossos. Num ataque inimigo, mais um jovem português dera a vida pela Pátria. Horas um pouco amargas se passaram nesses momentos. E como que num abrir e fechar de olhos, a guerra se tornava, agora, para mim, distante... Para trás, para trás... mas só por um mês. Tempo, contudo, suficiente para respirar lufadas de ar retemperador metropolitano; para receber os afagos cheios de lenitivo vital do ambiente familiar. Em poucas horas, Lisboa voltava a acolher-nos no seu seio. Mas... - que ingrata! - a quem vinha do sol quente do céu africano, oferece um frio incomodativo, uma temperatura de onze graus centígrados. Ingrata?!... Incomodativo ?!... Oh! Na verdade, não podia ser de outra forma. Lisboa dava o que tinha, do que era mesmo de seu. Era o seu beijo de boas vindas. E como, ao sentir esse frio, a princípio importuno, senti consolada a profunda nostalgia que há mais de um ano me dilacerava a alma! Sempre tivera saudade do frio da saudosa Metrópole...
No mesmo dia da chegada, um comboio me traz veloz aos braços dos que deixara. Mas se uma alegria exuberante me invadia o coração..., a minha alma conservava uma lacuna, onde habitava uma preocupação também nostálgica e dilacerante. Neste céu de felicidade que agora me começava a cobrir, não podia expulsar do pensamento os camaradas de armas que continuavam no campo da luta. Impossível olvidar aqueles bravos e simples rapazes que sempre tive sob as minhas ordens e que comigo passaram momentos de angústia e tensão. Jamais, pois, poderia considerar-me afastado dessa guerra que, ao levantar de Luanda, me parecia ficar pelas costas. Longe, sim, e sob os carinhos dos que me são amados, sinto-me, também, no meio dos que continuam sofrendo nas matas e savanas, nos montes e vales, nas traiçoeiras estradas do norte angolano, ou no isolamento dos acampamentos, onde o conforto falta. Ficaram... e eu vim. Ficaram... para que eu pudesse vir.
Só agora compreendo o que muitos não querem ver. Só agora sinto a tua abnegação, ó soldado humilde português que no Ultramar labutas para que outros, longe do troar das armas, vivam a paz doce de seus lares. E tu, heróico, esforçado, insensível à dor e à tristeza, não pedes sequer um agradecimento... uma única palavra... nada! Lutas sob a força do teu ideal – a Pátria, onde todos - em teu coração - têm laços de família. Lutas e morres também, ainda que o não penses, pelo teu Deus, que te criou. Longe... mas presente! Alegre... mas sofrendo! Afinal, rapazes que me acompanhastes, continuo a vosso lado.
Ouço também aquelas palavras dos pobres nativos de quem me fui despedir na hora da partida, e que circunstâncias determinadas pela rotação do dispositivo de forças não permitirão, talvez, voltar a vê-los. Ficaram tristes. Era para eles – disseram – “o nosso pai e o nosso mãe”... E eu ia deixá-los! Lembro a todos com saudade, e jamais deixarei de ouvir essa exclamação, autêntico grito de chamada missionária. Recordo, ainda, aquela última frase de uma simples mulher do povo, mãe de duas ternas crianças, e amparando mais uma de tenra idade, cujos pais na mata ficaram: -“ Goze muito boa viagem, nosso! ...”
Angola já tinha ficado lá muito para atrás... O avião rasgava as alturas do céu... à procura do seu destino. Mas, Angola continuava a acompanhar-me nas entranhas da alma... Continuava! Vinha comigo! Talvez por isso achasse fria de mais a temperatura dos ares de Lisboa.
Obrigado, ó Deus, por me trazeres de volta ao lar... Mas a missão não está totalmente cumprida. Tenho de voltar. Ajuda-me a beber o licor tonificante destas férias, e leva-me depois, de retorno, ao meu lugar, nesse solo martirizado de Angola, com maior força e coragem para vencer.
Angola - Abril de 1964

terça-feira, 21 de Julho de 2009

Para que da Memória se faça História

Apontamentos de um soldado em África - 12
A Ti, Mãe Imaculada!
Naquele dia cinzento, a morte desferiu o seu terrível golpe. O terror desta guerra traiçoeira e cruel ria-se perante aqueles corpos despedaçados entre gritos o ranger de dentes.
Dia tremendo! Dia inolvidável na mente o no coração de quem passou por cima dessa morte sem que ela lhe fechasse as suas garras dilacerantes, para as unir ferozmente instantes depois. Mãe! Prometi não escrever essa tragédia, cópia de muitas outras que esta guerra traz ao palco do seu teatro... Mas deixa que lembre apenas esse momento impressionante e abalador que me fez trazer até aqui a Tua Imagem.
Éramos poucos. Tu sabes que bastavam algumas rajadas inimigas para que o luto mais caísse sobre nós. Urgia trabalhar eficazmente, para que a desgraça maior não fosse. Perante aquele doloroso espectáculo, a Ti se dirigiu uma invocação, naquele próprio campo de luta tingido pelo sangue. E como se fez sentir tão manifestamente o Teu auxílio! ... Quis Deus levar três dos nossos ... mas se Tu, Mãe, não estivesses connosco, ali ficaríamos, talvez, todos para sempre. E aos que partiram do nosso convívio, não deixarás de oferecer alívio para as suas almas. Naquela hora, fiz voto de realizar o pensamento que já vinha alimentando há tempo: trazer para esta terra, outrora densamente povoada, e agora só, a imagem do Teu Coração Imaculado. E aqui ficarás, então, Mãe, sem medo do terrorismo sanguinário, mostrando o Teu Coração irradiando Amor, de braços prontos a acariciar ternamente os Teus filhos arrependidos. Aqui ficarás, a abençoar a terra que tem sido campo de lutas..., teatro de ódios e de vinganças. E a Tua benção passará os montes, entrará suavemente nas matas, em melodia inebriante, e há-de tocar aquelas almas enganadas pelas ideologias falsas que ora assolam a mundo.
0 Comunismo espalhará os seus erros... Muitas nações serão aniquiladas” – anunciaste, em Fátima.
E isto se cumpriu, porque fechámos os ouvidos aos Teus pedidos de penitência; porque não quisemos orar; porque continuámos a nossa vida de comodismo e de pecado! Oh, Mãe! E ainda hoje pecamos; ainda hoje nos custa orar; ainda hoje não nos penitenciamos !... Mas, aceitai as vidas aqui sacrificadas, os sofrimentos que nos flagelam, as orações dos que ainda se lembram de Ti e de Teu Filho!
As horas que passam são horríveis. De toda a parte, notícias nos chegam que deixam conhecer a loucura do mundo, cada vez mais devastadora e cruel. Os povos lutam contra si mesmos... Há chacinas aos milhares... Matam os missionários e arrasam as missões. A humanidade parece mergulhar nas trevas por vontade própria!... Morte! Crime! Pecado! Contudo, ainda se continua a proclamar, paradoxalmente, que essa luta destruidora há-de trazer Progresso e Ordem; que esses horrores hão-de virar em Felicidade; que essa morte será fonte de Vida futura! Os povos esqueceram Deus... Não! Repudiaram-n’O!... Ao Amor, contrapuseram o ódio, no seu mais elevado e requintado grau. E há tantos que não querem compreender o que tão claro se mostra à consciência dos homens!...
Desordem no Mundo... porque ninguém quer pôr em ordem, primeiro, a sua consciência, a sua alma. E haverá sempre luta, sangue e desoladora destruição, enquanto cada um projectar para o ambiente em que vive as calamidades do seu interior, a luta do seu próprio ser com a vida desregrada que leva, as consequências dos seus pecados!...
Fica nesta terra a Tua Imagem... E ficarás com ela Tu, para sempre. Ordena para o bem a alma e o coração destes que ficarão também a ser Teus filhos... e que agora se escondem à procura do momento oportuno para desferirem os seus golpes mortais. Demove-os do crime, para a caridade; da vingança, para o perdão; da luta, para a paz. Lança através dos montes e dos vales a Tua bênção cheia de ternura, e faz com que todos nós, portugueses, brancos, pretos e mestiços, sejamos fiéis a Teu Filho – Cristo, Redentor!
Mãe!
Aqui ficarás, solícita, para que sob a força do Teu sorriso maternal, também aqui, neste cantinho de Angola, terra da minha Pátria, como em todo o mundo, o TEU IMACULADO CORAÇÃO TRIUNFE, FINALMENTE!
Beça Monteiro - Angola, Março 1964

sábado, 18 de Julho de 2009

Para que da Memória se faça História

Apontamentos de um soldado em África - 11
Aos jovens
Chegou o princípio de outro mês... É altura de mandar para “Missões e Missionários” mais um destes apontamentos singelos que me comprometi a enviar para que fosse sempre mantido o contacto do nosso espírito – daqueles que se viram transportados para novas paragens, atrás de um chamamento aflito da sua amada Pátria.
Passeando, pensava, há bocadinho, na matéria que, desta vez, poderia constituir a nossa conversa. Tanto há que se podia trazer para aqui!... Horas boas... e horas más. Alegrias e dores; esperanças e desilusões; glórias... e tragédias! A guerra tem de tudo... É como um teatro imenso, onde o mundo representa ao vivo as suas peças mais variadas.
Pensava... E, não sei porquê, veio-me à mente aquela juventude que se prepara para vir até cá, a continuar a obra que outros começaram há centenas de anos; a consolidar mais e mais o sagrado nome de Portugal.
Pensei na juventude... e senti um calafrio de tristeza!... É que, na minha consciência, ao lado daquelas almas irrepreensíveis; daqueles caracteres lusitanos prontos a honrarem os seus maiores e a defenderem os lares dos seus semelhantes; daqueles corações caridosos, seguidores de Cristo, ansiosos de realizarem em toda a plenitude a vocação da terra que os tomou por filhos... apresentou-se-me essa juventude que, pejorativamente, chamam de «juventude moderna»... Esses rapazes (e raparigas) que precocemente se desligam da autoridade paterna... Esses jovens que se habituaram a olhar o mundo só pelo prisma do presente e a vê-lo segundo as suas leviandades! Muitos virão às terras de África, porque a Pátria o vai ordenar... Porque lhes vai exigir a sua parte na construção desta obra que os anteriores nos legaram e que temos de deixar incólume e mais desenvolvida aos vindouros. E estarão eles à altura de cumprir?...
Não há muito, disse o Professor Adriano Moreira: « ... do que não podemos ser perdoados, é de que a juventude que foi confiada à escola não esteja preparada para aceitar com dignidade, com coragem e com portuguesismo os desafios que o destino reservar à Nação Portuguesa».
E a preparação da juventude, para ser genuinamente portuguesa, não pode deixar de ser profundamente cristã. A acção de Portugal no mundo é uma acção missionária. Só consolidaremos o Portugal multirracial, se nos alicerces conservarmos as pedras basilares dos princípios cristãos. De resto, não estamos nós a ser campo de luta entre forças adversas, porque queremos continuar fiéis ao Portugal de Henrique e de Nun'Álvares?...
Senti tristeza ...
Porque vi alguns jovens iludidos e levianos malbaratarem essas energias que a Pátria lhes vai pedir... Porque vi uns tantos rirem-se de Cristo e de seus ministros... Porque os senti mal preparados para esta obra tão delicada e difícil! Alguns serão, chefes, terão homens a seu cargo... e arrastarão outros atrás de si! Cegos a guiarem outros cegos!...
Compete à escola, sim, formar a juventude que vem ao Ultramar. Mas pede-se urgentemente e com gravidade à Família que eduque e vigie os seus filhos, aqueles a quem a Nação há-de ser entregue nos tempos próximos. Seria para nós um grande desastre, se a juventude que embarca para África fosse aquela que desgastou o corpo e a alma pelos salões de baile, nos macabros «twists»; aquela que passou as horas livres extasiando-se perante artes imorais e lascivas; aquela que se habituou a postergar a honra e o valor supremo dos que já caíram na luta!
Admiro neste momento um quadro real de impressionante beleza e simbolismo: através da janela, veja projectada no céu azul a gloriosa Bandeira das quinas. Ao longe, por detrás dos montes Vucussos, inóspitos e escalvados, a imensa e perigosa mata Sanga espreita com a morte escondida na sua vegetação frondosa, mas traiçoeira. Há lá famílias subjugadas que temem a tropa, sob a pressão do terrorismo cruel dos bandoleiros, vivendo assim num dilema sufocante. É preciso ir buscá-las e mostrar-lhes a verdade... Mas a Verdade que o Senhor, há muitos anos, proclamou na Palestina, e que Portugal aceitou como obrigação de levar às almas que a História lhe confiou.
A Bandeira, flutuando ao vento e projectando-se no horizonte sinistro, parece querer dizer que Portugal vencerá, por fim. Mas, nunca vencerá, se o braço do soldado já vier cansado... Se a sua alma já vier empedernida pelo pecado... Se o seu coração já vier mergulhado no veneno que tem derrubado o mundo!
Angola – Fevereiro, 1964

quinta-feira, 30 de Abril de 2009

Para que da Memória se faça História

Apontamentos de um soldado em África - 10
Almas brancas de gente negra
O negro de África constitui, para aqueles que pela primeira vez contactam com a sua vida e a sua maneira de ser, um autêntico mistério, cuja curiosidade em desvendar se torna motivo de grande interesse. Já algumas vezes tive aqui oportunidade de referir alguns aspectos do comportamento dos nossos irmãos negros, mas não será demais voltar ao mesmo assunto e alargar um pouco o panorama em observação.
Há quem olhe para os povos africanos, para aqueles que ainda não assimilaram em profundidade a cultura do nossa civilização, vendo neles o protótipo do homem primitivo... Surgem, por outro lado, opiniões que se afastam um bocadinho desta linha de pensamento, vendo nessa gente, não um tipo primitivo, mas uma cultura diferente, dentro dos limites naturais do seu desenvolvimento, para o que a palavra “primitivo”, adquire um sentido mais remoto e diverso.
Não importa quedarmo-nos nesta discussão, mas talvez não seja descabido apontar o facto seguinte: muitos que vêm para África julgam, infelizmente o temos de confessar, ver no preto o tal primitivo... e, o que é de muito lamentar, estendem o seu conceito para além da capacidade técnica, instrumental do nativo, para situar na sua própria alma uma espécie de insuficiência espiritual, que o impede de se aproximar dos nossos ideais, das nossas maneiras de sentir, justificando, ao mesmo tempo, para com ele, um tratamento diferente, às vezes aviltante.
Assim, tenho assistido já, terrivelmente embaraçado por tal, a ditos tendenciosos, por parte de brancos a negros, que nascem de um falso complexo de superioridade rácica... quando, afinal - e com facilidade isso se deduz de um pouco de experiência no meio - a mentalidade desses brancos é manifestamente inferior à dos negros!... É que a falta de preparação para a missão social tão delicada e espinhosa como a que ora nos chama, pode levar a julgar o negro como um ente que só tem a receber e nada a dar... Erradamente, aceitamos a ideia de que tudo o que o branco fizer, o preto tem de aprovar, porque para ele isso só pode servir de bem... Não penetramos suficientemente no seu íntimo, e, por isso, nem sequer procuramos saber o que ele pode pensar. Deste modo, não o compreendemos, e atingimos insucesso quando lhe pretendemos impor um determinado “status”, sem olhar para aquilo que sempre constituiu para ele a maneira normal e certa de existir.
Na verdade, o nativo olha para nós com os mesmos olhos com que olhamos nós para ele, com o mesmo espírito observador e crítico. Ele julga os nossos actos pelos padrões que possui e, mesmo que o não faça exteriormente, no seu íntimo aprecia-nos com admiração, ou lamenta-nos com indiferença. E, então, se nós mesmos entramos em contradição perante ele... Se lhe dizemos que isto é assim e se faz desta maneira, e procedermos de outro modo... Mais valera não começar! Quando em certa ocasião disseram a uma indígena que tinha de ir à escola para aprender a ler e a escrever, ela respondeu, simplesmente, que também havia muito branco que não sabia ler...
A justiça é para os africanos uma coisa sagrada, que sentem de modo apurado. E nós temos de nos mostrar absolutamente à altura de os servir neste aspecto. Se nos caçam uma falta, nunca a esquecem, e ficam bastante chocados... Tanto mais, quanto, pelos seus próprios meios, menos possibilidades têm de colocar as coisas nos seus devidos lugares.
Outro dia, um rapaz, tocou na buzina de um carro. Chamei-o e admoestei-o. O rapaz ficou atrapalhado... mas mais atrapalhado fiquei eu, quando um outro, do mesmo grupo, se adiantou até mim, dizendo-me abertamente: “- Eu também toquei”!... Fiquei sem saber o que fazer: se ralhar, se calar-me. Em voz mais branda, fiz-lhes, então, compreender o mal praticado, e aconselhei-os a não repetirem a acção.
De outra vez, prometi qualquer coisa - que agora não lembro o quê – aos miúdos da escola. Não cumpri tão depressa como seria para desejar, e então um deles me disse na primeira oportunidade: “ - Tu mentiste”!... Vários casos poderíamos aqui apontar comprovativos de que a alma negra pensa e sente como a nossa, e tem bem arreigados os sentimentos de pudor, de respeito, de gratidão, de amor, enfim, aqueles tesouros que alguns pensam ser apenas apanágio da gente branca.
Fui um dia fazer umas compras a uma aldeia. Anteriormente, já lá tinha ido com um capelão militar, e este mostrou-me um pequerrucho de quem era padrinho de baptismo. Desta última vez, perguntei ao soba pelo rapazito, e dentro em pouco apareceu a mãe trazendo-o ao colo. Ali mantivemos por momentos agradável conversa. Quando me preparava para vir embora, fui informado de que a mulher queria oferecer-me alguma coisa... Esperei, e ela apareceu com... um pequeno molho de tenras couves!... Quis pagar-lhe, mas não aceitou dinheiro. E fiquei a pensar naquele gesto... e rio valor que ele teria no coração daquela pobre mulher, expressando desse modo a sua gratidão!
Vi, noutra ocasião, um cabo Sipaio dizer para uma mulher ainda nova: “ - Até logo, mãe»! Admirado, perguntei ao preto por que chamava mãe àquela mulher, uma vez que ele não podia ser filho dela. Explicou-me que era uma forma de prestar respeito... Ela era uma mulher; por isso podia ser uma mãe!... Semelhantemente, ouvi, em outra ocasião, uma mulher chamar sogro a um homem já de certa idade, e ao qual nenhum laço familiar a unia. Compreendi, então, quanto eles respeitam a pessoa humana! Quando conversam, sempre se tratam por “você”, e gostam imensamente de apertar a mão, em cumprimento, quando se encontram na rua. Atitudes que envergonhariam certa gente chamada civilizada.
Perscrutando o íntimo destes nossos irmãos, nós encontramos na sua alma uma riqueza imensa. Riqueza que muitos desconhecem... Que nós próprios contaminamos, por vezes, com os nossos defeitos e os nosso vícios... Riqueza que falsas ideologias políticas e materialistas pretendem avassalar em nova “escravatura”, sob as ondas da revolta universal.
Saibamos nós, portugueses, cientes da nossa missão humana e cristã, realizar aquilo que Deus nos pede e a Pátria exige, orientando à luz da Verdade a alma destes nossos irmãos de África.
Angola - Janeiro 1964