sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Para que da memória se faça História

Feitos e Factos
da “descolonização” da Guiné – 21

Entrei o mês de Agosto a comandar interinamente o Batalhão, dado que o ten-cor cmdt havia seguido para Bissau, a fim de entrar de licença e se ausentar, para um merecido descanso na ainda chamada Metrópole; e por não ter chegado, entretanto, o 2º. cmdt, major M. B., que, por sua vez, terminava o seu período de férias. O ambiente, em Pirada, estava agora mais calmo. O soldado comando que havia sido raptado pelo PAIGC fora, afinal, liberto, e mostrava-se em Pirada com ar de satisfação. Mais um problema resolvido.
Em 3 de Agosto, anotava eu, pelas 13 horas:
“Tudo tem corrido bem nestes últimos dias. Hoje é o aniversário do PAIGC. Houve hastear da nossa Bandeira, no quartel, e da bandeira do “Partido” na “Administração” e em casa do tal M. S. (comerciante já referido nestas crónicas). Às 10h00 houve um pequeno e curto comício (sessão de esclarecimento) onde também estive a representar a tropa, com outro capitão”.
E acrescentava: “Estão agora a decorrer manifestações de rua, ordeiras, sem problemas. Parece o carnaval. À tarde, há futebol. Juventude local (PAIGC) e soldados. Oxalá tudo decorra bem”. E, na verdade, decorreu.
Pelas 3 horas da tarde, chegou o esperado  maj M. B., 2º. Cmdt., com a notícia de que até ao fim do mês marcharíamos para Bissau, entregando Pirada ao PAIGC. Iríamos ocupar, na capital, o quartel dos paraquedistas. A este propósito, deixei escrito, ainda no mesmo dia, a seguinte anotação:
“Começo a ter pena desta gente. Estão tão habituados e agarrados à tropa... que a nossa saída vai ser para eles o começo de uma nova vida, que julgo infeliz vida. Mas, é a roda da história que não pára!
Era um facto que o tempo parecia acelerar-se em crescendo. Começava eu a ver goradas as minhas tão aguardadas férias. Ninguém podia, com certeza, prever o futuro... Os acontecimentos começavam a desenvolver-se em “bola de neve”, que na sua corrida pelo declive da montanha ia aumentando de volume. E era esta incapacidade de prever e controlar o futuro que nos dava cabo da cabeça e dos nervos. Apenas sabíamos que quanto à Independência da Guiné, de Angola e de Moçambique, o Gen. Spínola, presidente da República, tinha “reconhecido” o direito à auto determinação e independência, e “reconhecer o direito a”... não era ainda “reconhecer a”... Contudo, admitíamos que, quanto à Guiné, a Independência fosse reconhecida dentro dos próximos quinze dias...
Em 4 de Agosto, registei, pelas 22h15, o seguinte apontamento:
“Passou mais um Domingo... sem missa, sem descanso. De manhã, levantei-me às 6 horas. Não havia água. Não fiz sequer a barba. ... Comecei logo a trabalhar. Papeis, atender os “màmàdús” (é o nome que a gente aqui dá aos “gentes” que nos vêm “chatear”), paigcês, etc. Às 11 horas, pus um pisa-papeis nas notas e mensagens da minha secretária, e fui com outros, inclusivamente o major Moniz Barreto, jogar vólei. Ao meio dia, tomei um banho, fiz a barba e fardei-me melhor: calção e meia alta (é por isso que estou aqui à rasca com os mosquitos...) e almoçámos. Nem tive tempo de descansar, de tarde, de “cumprir as NEP’S”. De tarde, até agora, com intervalo para o jantar, foi a mesma vida. Nem tive tempo para ir ver a “tourada”, que ao Domingo, normalmente, se faz aqui no “redondel” improvisado”.
E terminava, repetindo a minha apreensão pela situação daquele povo:
“Quanto à nossa saída daqui, vai começar a processar-se. Tenho pena desta gente. A tropa vai fazer muita falta. Mas, pode ser que não seja nada... e até seja bom para todos.”
Infelizmente, o futuro... até hoje, não parece ter sido pacífico, nem compensador!



Legenda: "Sessão de esclarecimento do PAIGC em Pirada"



quarta-feira, 5 de junho de 2013

Para que da memória se faça História


Feitos e Factos

da “descolonização” da Guiné – 20




 


A Paz... nem sempre é mais fácil de gerir 
do que a guerra


Situação desgastante, dizia eu no meu anterior apontamento. Na verdade, aquela paz podre em que vivíamos era bem pior do que o fragor mortífero das armas. Neste cenário, há planos, preparação, determinação, coragem, resultados... Naquela, o imprevisível, o desconhecido, o perigo escondido, a indefinição final. Mas, continuemos a ler o que então escrevi, “ipsis verbis”:

“28 de Julho de 1974. É Domingo. Mais um Domingo. Já fiz umas coisas do meu trabalho normal. ... Entrou agora o comandante aqui no meu gabinete... anda abatido, como se lhe tivessem dado uma valente coça. É por causa daquele soldado “comando” que ontem à noite elementos do PAIGC prenderam e levaram para o acampamento. Hoje de manhã tivemos a confirmação, através de um aerograma que uns “milícias” mandaram ao comandante, a informar o acontecido e a pedir para o comandante mandar uma mensagem ao Batalhão de Comandos (pretos), em Bissau. O problema resume-se ao fim e ao cabo nisto: um militar é preso pelo PAIGC dentro da nossa área de responsabilidade. Isto é um incidente que pode dar reacções imprevisíveis por parte dos outros militares africanos. Parece que já têm acontecido outros actos noutras localidades. Estamos à espera de um major, comandante das tropas africanas, de Bissau, a ver se vem tomar conhecimento do problema. O mais engraçado é que os do PAIGC estiveram cá hoje de manhã e não falaram no assunto. São estes os problemas que nos dão cabo da cabeça, dos nervos e, sei lá, do coração. Estas situações são piores do que debaixo de fogo, na guerra, onde se dominam perfeitamente os acontecimentos.”

E, adiante do meu escrito, anotava mais:

“É que há uma organização, a FLING, que é contra o PAIGC, e está a recrutar adeptos para combater o PAIGC. E este (soldado) comando parece que andava por aí a dar com a língua nos dentes p’ro FLING. O PAIGC tem medo da FLING como o diabo da Cruz. A FLING está proibida na Guiné, pois não interessa mais guerra e não há dúvida que o PAIGC é o partido que está em condições de tomar conta da Guiné. Mas - oxalá que não -, eu tenho a impressão de que quando as tropas portuguesas de cá saírem, isto vai andar por aqui tudo à porrada. Até já ouvi dizer que ontem ou há dias, houve para o sul uns problemas com a FLING, em que teve de intervir a própria aviação portuguesa... Se é verdade, confirma o que eu disse no princípio: “não me admira se um dia tivermos de pegar em armas novamente para lutar, desta vez, ao lado do PAIGC”.

Era esta a situação delicadíssima em que vivíamos, nunca imaginada, antes, como possível!... De resto, em Angola e Moçambique viriam a desenrolar-se problemas semelhantes: em Angola, com a actividade da UNITA, principalmente, e, em Moçambique, com a RENAMO.
Mas voltemos ao meu apontamento epistolar:

“Ontem, ouvimos na BBC que o Gen Spínola tinha reconhecido o direito dos povos dos territórios ultramarinos à autodeterminação e independência. Oxalá se chegue a uma solução para todos, porque o Ultramar Português, isso acabou e não volta atrás. Os acontecimentos são irreversíveis e mais uma vez se prova que não são os militares que perdem, mas sim a Politica dos homens que não sabem governar os povos.”

E terminava, com a seguinte notícia:

“Parece que já não vem para a Guiné mais ninguém, nem individualmente nem em Unidades. Vão começar a mandar pessoal embora, de modo que até Dezembro esteja na Metrópole 50% dos efectivos combatentes.”

Estas previsões viriam a ser, afinal, antecipadas. O processo acelerou-se vertiginosamente, como na oportunidade hei-de referir. Entretanto, no dia seguinte voltei a registar:

“Sempre veio cá o tal major que tínhamos pedido a Bissau para vir ajudar a resolver o problema do “comando”, e outros de menos importância. O PAIGC entrega o “sujeito”, mas temos de o enviar para Bissau, ao cuidado do Comandante-chefe (Brig Fabião). Portanto, mais um problema em vias de solução.”

Noutro passo da carta, deixei este aparte,

“Hoje foi um dia de trabalho insano, com os meus papéis. Dei graças a Deus, porque o comandante está satisfeito com o meu serviço. Até agora (há pouco), apresentei-lhe uma nota, a tratar de um problema, que era para o major levar para Bissau. Ele disse: “Tu és uma máquina. Só tens uma coisa que deves corrigir. Tens grande capacidade para resolver os assuntos, mas precisas de fazer um esforço no sentido de sintetizar”.
Eu ri-me... E, afinal, este meu saudoso comandante, tentou cortar algumas coisas no trabalho em mãos, mas, por fim, ficou quase tudo na mesma... 

Deus tenha em paz o saudoso e bom amigo Coronel Jorge Mathias, de quem sempre guardei a recordação do seu prestimoso conselho, mas que – me perdoe, lá do Céu – ainda hoje não consigo pô-lo em prática...

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Para que da memória se faça História




Feitos e Factos
da “descolonização” da Guiné – 19





Em carta de 26 de Julho de 74, ainda eu admitia a nossa saída da Guiné por alturas do fim do ano em curso. Eis o apontamento, de circunstância:
Hoje fui a Paúnca. 1 hora de Berliet, daqui até lá. Fui com o comandante e mais dois alferes, um dos quais, sobrinho do Sr. “Marques” de Perosinho (o Alferes Fernandes, de Transmissões). Saímos às 7 e pouco da manhã. Depois, de lá ainda fomos, ou melhor, fui eu, num unimog que ia levar uns “camaradas” do PAIGC a uma outra aldeia nativa, a ½ hora de caminho. Almoçámos em Paúnca. Cabrito com batatas fritas, arroz branco e ervilhas. Vinho verde, Casal Garcia. Estava tudo muito bom. Comi bem, soube-nos melhor”. Só que... (ver apontamento mais abaixo)
Julga-se que este (o nosso) Batalhão irá embora no princípio do ano que vem. (...) Também estamos a contar que o mais tardar em Outubro sairemos daqui, talvez para perto de Bissau”. (Mas, de facto, tudo acelerou depois... Como veremos, na oportunidade, os prazos foram encurtando... Na noite de 14 para 15 de Outubro, embarcaram os últimos militares em lanchas de desembarque, a caminho do Niassa, no alto mar.)
No dia seguinte, anotei mais:
“Sábado, 22h35. Hoje de manhã fui assistir à travessia de um riacho, que agora com as chuvas que têm caído, cortou a estrada que liga a Bajocunda. Só se pode passar de barco. Aproveitei para tirar uns “slides”, pois o acontecimento prestava-se a isso. Tem chovido bastante nestes últimos dias”.
Mas nem tudo eram rosas... A situação de “stress” que se vivia, e a alimentação nem sempre adequada, não eram condição que assegurasse tranquilidade na saúde. Saibamos porquê:
“Hoje, a partir do ½ dia, tive uma forte indisposição de estômago, que me provocou também fortes dores de cabeça. Tomei sais de frutos... Nada! Faltava-me a Alka-Seltzer. À tarde, depois das 5, fui-me deitar um bocado. Depois, vomitei, na casa de banho, e fiquei mais aliviado; a dor de cabeça passou-me. Ainda deviam ser os restos do cabrito de ontem, que comi em Paúnca, que andavam cá dentro aos saltos”. 
Mas as complicações não ficavam por aqui... Mais adiante no meu escrito, deixei mais este apontamento:
“Há bocado... recomecei este aero, e tornei a interromper, pois apareceu aqui o cmdt a conversar sobre um novo problema que hoje surgiu. São agora ½ noite e dez. O problema (estão sempre a surgir; soluciona-se um e aparece outro) é o seguinte: apareceu aqui há dias aquele soldado dos Comandos, preto, a tirar satisfações por causa do irmão... (o milícia que o PAIGC tem retido). O irmão, mais tarde, apareceu fardado de PAIGC e a dizer que queria ficar lá no Partido. O comando ficou satisfeito por ver o irmão e o problema ficou resolvido. Mas parece que durante esta semana andou para aí a incitar os milícias contra o PAIGC. E hoje o PAIGC lhe terá “deitado a luva”. Mais um problema, pois o tipo é militar e isto levanta um problema sério. Já tínhamos chamado de Bissau um major (do QG) para vir de avião a fim de levar o tal “comando”. Deve chegar amanhã. Agora, com este procedimento do PAIGC, a coisa complica-se um pouco. Paciência. Deus dará solução para mais este caso”.
Simplesmente, no dia seguinte, o tal interlocutor “oficial” de Bissau, não apareceu.
Mas deixemos a continuação deste desgastante episódio para a próxima crónica...

Para que da memória se faça História




Feitos e Factosda “descolonização” da Guiné – 18


20 de Julho de 1974. Sábado, 4 horas da tarde. O comandante da Unidade (Ten Cor. Mathias) encontra-se em Bissau, para um reunião de Comando. A “barca” está pois entregue a este timoneiro de reserva, com as ondas mais ou menos calmas. A toda a hora esperamos algum vento adverso que sopre e agite as águas deste mar encapelado da Guiné, em consequência da revolução em marcha, a milhares de quilómetros de distância, no rectângulo lusitano da velha Europa. Os acontecimentos por aqui, e agora, surgem sempre inopinados, imprevisíveis e complicados.
Entretanto, sou chamado ao rádio... O comandante de uma companhia do batalhão tivera de ordenar prisão a dois soldados nativos, por problemas de indisciplina... Estava a ser difícil, as tropas naturais da Guiné aceitarem o que se estava a passar, pois o futuro, para estes militares, era uma incógnita. Desarmá-los, em consequência deste volte-face, constituía um grave mas necessário problema. A guerra tinha acabado... mas quem a perdeu ou quem a venceu?!... Que futuro iam ter os naturais do território que, a nosso lado, e de armas na mão, tinham defendido o seu chão, a sua tabanca, a sua família, o seu povo, contra a guerrilha do PAIGC? Eles tinham acreditado nos portugueses, em Spínola, Governador estimado... No futuro!... E agora?!... Quem os traiu?!... Quem os quer trair?!...
Os dois militares presos foram trazidos para o Comando do Batalhão, para, no dia seguinte, serem remetidos para Bissau, em avião entretanto solicitado. Mas o avião não apareceu e recebeu-se ordem para que fossem transportados para Nova Lamego, o que aconteceu. Soube-se depois que um dos presos se havia evadido daquele quartel, indo apresentar-se ao PAIGC, com queixas sobre a sua anterior situação e que a tropa portuguesa o tinha maltratado. Esperteza, para salvar a pele!?...
Por estes dias, recebo um aerograma do capitão Marques, que fora chefe de secretaria do meu batalhão de Moçambique (anterior comissão de serviço). Escreve da cidade do Mindelo, ilha de S. Vicente, Cabo Verde, para onde fora de novo mobilizado. Respigo o apontamento: “Diz que aquilo é uma paisagem lunar, árida, seca. Sobre a conjuntura presente, sente bastante tudo o que se está a passar, desde o 25 de Abril”. Diz ainda: “Politicamente, é a hora da Paz; qual, não sei ainda, não percebi bem ainda. Espero que seja a Paz de Deus embora saiba que existe também a paz do diabo”. E acrescenta que “”pede a Deus que ilumine o “Timoneiro” para que este possa levar a Pátria a bom termo””. Infelizmente, os receios deste meu “camarada” (hoje já no Reino Eterno) haviam de, mais tarde, concretizar-se. Na paz sobrevinda, muita dela veio a ser mesmo a paz do diabo, que levou à queda do referido “Timoneiro” (general Spínola) e à sua retirada “estratégica” para Talavera La Real, em 11 de Março de 1975. Só o “25 de Novembro”  desse ano haveria de restabelecer no País a “Paz de Deus”. Mas voltemos à Guiné:
Domingo dia 21 de Julho. Almoçam connosco dois comandantes do PAIGC, e de tarde o chefe da propaganda do partido chega a Pirada, para mais comícios-festa, manifestações de rua, como propaganda dirigida à população. Lá veio para a rua o elemento feminino, com os seus trajes garridos e capulanas vistosamente floridas. Algazarra, música gentílica, tambores, palavras de ordem. A própria filha de M. S. (o já referido comerciante) é figura de proa e porta-bandeira. Oferece-me um galhardete do PAIGC, que ainda hoje guardo, como recordação desse conturbado tempo.
Segunda-feira, 22 de Julho. Vindo de Bissau, aparece em Pirada o soldado comando (já referido na crónica passada), irmão do milícia detido pelo PAIGC, a tirar satisfações pela “entrega” deste, pelo Batalhão, ao partido, e a dizer que o PAIGC já o tinha matado. Isto foi motivo de grande preocupação. No dia seguinte, 23, contactados os elementos do PAIGC, negaram eles a morte do referido milícia, trouxeram-no, fardado como eles, a presença do dito soldado comando, a quem disse estar bem, de boa saúde, e que não desejava regressar, pois aderia ao partido. O soldado comando ficou radiante por ver o seu familiar vivo, e pôs de parte todo o desejo de vingança. Porém, nunca mais se soube, ao certo, nada sobre o destino do outro detido, o “negociante de carne”... Admitiu-se ter sido, entretanto, eliminado pelos seus captores: o lado negro desta situação de paz quebradiça que ali se vivia.
Terça-feira, 23 de Julho: Bobo Keita, comandante da frente leste do PAIGC, visita o Batalhão. Esteve nas conversações de Londres e em Argel. Demonstrou ser uma individualidade muito equilibrada, afável, culto e muito ciente do seu papel neste processo de paz para a Guiné. Retenho duas afirmações da afável conversa que manteve com o Comando, nessa ocasião:
Na Guiné, após a independência, “Toda a gente tem de trabalhar!”... “Cada homem terá uma só mulher!”... Nunca mais esqueci estas duas frases de Bobo Keita; deste homem que lutou, segundo as ideologias bélicas do seu tempo, pela independência política da sua terra, viveu em Cabo Verde (onde quis ser sepultado), e acabou por morrer em Lisboa - Portugal. A História tem destas ironias, e não é o fragor das guerras que endurece o coração dos homens bons, mas sim o ódio que as pode motivar. E no rosto sorridente de Bobo Keita, apenas vi transparente a alegria da paz alcançada e uma sublime esperança de futuro melhor para o seu povo. Pena que esse futuro não tivesse chegado ainda em sua vida, e até hoje se mantenha adiado e incerto. Em sua honra e memória, fica aqui, dele, o seguinte apontamento, que retirei, com a devida vénia, da Net:
... ... ...
“31-01-2009 15:44
Cabo Verde
Morreu Bobo Keita-combatente do PAIGC



   
Cidade da Praia - O combatente Bobo Keita, que em Setembro completaria 70 anos, morreu hoje em Lisboa, de doença prolongada. Natural da Guiné-Bissau, Keita foi um dos primeiros guineenses a aderir ao PAIGC, tornando-se num dos  mais respeitados comandantes durante a guerrilha.
 Cabo Verde, país pelo qual também lutou, tornou-se a sua “pátria de coração”, fixando-se em 1980. E, cumprindo o seu desejo, ele vai ser enterrado na Cidade da Praia na próxima terça-feira.
 O corpo de Bobo Keita será trasladado na próxima segunda-feira, para ser enterrado na Várzea.
... ... ....
 Homem digno e ponderado, Bobo Keita integrou a lista dos primeiros quadros formados pelo PAIGC. Na Guiné combateu em várias frentes.
 Fiel aos princípios do PAIGC, Bobo Keita é um dos comandantes guineenses que se recusou a aderir ao golpe de Nino Vieira. Em Cabo Verde, onde passou a viver, dirigiu o centro de recuperação de jovens em S. Jorginho, do Instituto Cabo-Verdiano de Solidariedade (ICS), granjeando a estima e o afecto dos seus pupilos.
 Foi através do futebol que Bobo Keita veio a Cabo Verde pela primeira vez, em 1958. Jogador do Benfica de Bissau, ele integra a Selecção da Guiné que foi jogar num torneio em S.Vicente, retornando dois anos depois, desta feita, para jogar na Cidade da Praia.
 Futebol foi também a via através da qual BK passou a interessar-se por politica. Depois de participar num torneio no Gana ele e os seus companheiros são recebidos pelo presidente Kwame N’Krumah.
 Com o 25 de Abril de 1974, negociada a transição da soberania, foi BK a comandar as forças do PAIGC que, a 8 de Novembro daquele ano, entraram em Bissau. A independência da Guiné, proclamada um ano antes, a 24 de Setembro, coincidiu de resto com o aniversário desse seu combatente, que, naquele mesmo dia, completava 34 anos.
(Cfr ANGOP – Agência AngolaPress 31-01-2009)

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Para que da memória se faça História


Feitos e Factos
da “descolonização” da Guiné – 17




Como já temos vindo a dizer, os acontecimentos relativos à descolonização da Guiné iam tomando, dia a dia, matizes diferentes, imprevisíveis, o que contribuía para arrasar os nervos das nossas tropas. A disciplina degradava-se, mercê da situação psicológica criada nos militares, que, agora, sem actividade operacional e com futuro incerto, ocupavam o seu tempo nas tarefas de serviço diário de escala, em actividades desportivas, ou, livremente, visitando, nas imediações do aquartelamento, o comércio de Pirada
Importa referir que a situação de guerra “quente”  anteriormente vivida, com frequentes ataques aos aquartelamentos, obrigava a que estes se configurassem a um dispositivo disperso de segurança, ou seja: os pelotões estavam disseminados ao redor de toda a povoação, em abrigos cavados no terreno (bunkers), com os efectivos a guarnecer armas pesadas de infantaria e de artilharia, para defesa contra as flagelações do inimigo. Este, possuindo já artilharia de foquetões (mísseis) dirigidos, terra a terra ou terra - ar, desenvolvia os seus ataques desde alongadas distâncias, que as nossas armas de defesa tinham dificuldade em vencer (morteiros, artilharia de 8,8 cm, 14cm, 11,4 cm, e peças de 9,4 cm).
A este propósito, é oportuno lembrar que no próprio dia 25 de Abril de 1974, enquanto em Lisboa decorriam as operações do golpe de Estado, Pirada sofria um violento ataque, de cuja “memória”, e com a devida vénia ao autor do blog “blogueforanadaevaotres.blogspot.pt”, aqui se transcreve um excerto do registo nele deixado pelo então 1º cabo atirador, Joaquim Vicente da Silva:
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“Eram mais ou menos dez e meia, eu já tinha tomado banho e estava no meu quarto, abrigo nº. 1, deitado em cima da minha cama e ouvi um pequeno estalido. Um colega que estava cá fora sentado num banco, gritou logo:
-Saiam para a vala que isto é o início de um ataque!...
Naquele dia o PAIGG bombardeou Pirada com muitos mísseis e morteiros, alguns caíram bem perto do local onde eu me encontrava, eu não morri por sorte. A meu lado, morreram três africanos nossos colegas, um míssil caiu-lhes aos pés e cortou-os em pedaços. Nunca tinha visto nada daquilo. Fiquei horrorizado, ainda hoje mexe comigo.
Nós, soldados brancos, não morremos nenhum, porque estávamos bem agachados nas valas ou trincheiras. Vieram juntar-se a nós vários oficiais, incluindo o alferes médico que nos disse para nos espalharmos mais pelas valas porque aquilo estava a ficar feio.
Este bombardeamento durou cerca de duas horas. Nós respondemos com os morteiros 81, os nossos obuses 10.5 e o nosso obus 14 que estava junto ao aeroporto de Pirada.  Bajocunda também nos deu apoio de fogo com o obus 14 deles. Foi um inferno. Só se ouviam bombas a voar, outras a assobiar e a rebentar por cima ou perto de nós.”
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Mas a guerra tinha efectivamente terminado... A luta armada, que não os problemas sobrevindos!
A paz efectiva, tem de ser construída, porque não pode fundamentar-se na simples determinação e vontade do mais forte. E não estávamos nós já, nas circunstâncias presentes, em situação de pensar que detínhamos  a supremacia da força – nem a força moral, e nem, muito menos, a das armas. Por isso, os problemas continuavam a surgir a cada momento.
O nosso relacionamento com os elementos do PAIGC desenvolvia-se em termos amistosos. Falávamos a mesma língua – o Português – embora alguns, a princípio, preferissem o crioulo, que logo era abandonado, ultrapassadas as primeiras barreiras da desconfiança. Mesmo assim, o imprevisto estava sempre a dar cabo dos nossos nervos. Não era fácil convencer aquela gente, e principalmente aqueles que pegaram em armas para, a nosso lado, defenderem o seu chão. De um dia para o outro, tudo tinha mudado. Íamos entregar o património sócio-histórico e cultural nas mãos daqueles que até aí nos tinham combatido... Inacreditável! A retaguarda, a milhares de quilómetros de distância, tinha abalado os alicerces de um povo, que se via agora diante de uma perspectiva de futuro desconhecido. Era preciso, pois, convencer o povo – esse povo que tanto tinha apostado na politica de Spínola, com rumo a um futuro risonho e livre – de que, afinal, o “Inimigo” é que tinha “razão”!... Uma reviravolta! Para alguns, ou mesmo para muitos, uma “traição”!
Entretanto, o PAIGC continuava a desenvolver a sua “Psico”, através de reuniões, comícios, manifestações públicas, cortejos de propaganda... O Administrador – um branco – temendo pela fragilidade da sua segurança (não estava nas boas simpatias do já referido e influente M. S.), afastou-se definitivamente do seu posto e função. Deixou de ser visto em Pirada, presumindo-se que tenha “regressado” a Lisboa... A substituí-lo, ficou o seu adjunto, um natural, que rapidamente se integrou nas actividades do “Partido”.
Tudo se sucedia a uma velocidade impressionante... As ocorrências do dia a dia ultrapassavam todos os nossos planos e previsões. A disciplina dos nossos militares degradava-se, e alguns episódios graves iam surgindo a escaparem à nossa capacidade de controlo. Entretanto, apareceu em Pirada um soldado comando (preto), vindo de Bissau, a pedir satisfações ao Comando do batalhão pelo que tinha acontecido ao seu irmão – o milícia que tinha sido retido pelo PAIGC com o negociante de carne, já aqui referidos em crónicas anteriores.
Mas deixemos este e mais outros factos para a próxima conversa... 

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Para que da memória se faça História




Feitos e Factos
da “descolonização” da Guiné – 16
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A situação, na Guiné, continuava complicada, dado que em Lisboa os acontecimentos de convulsão politica não favoreciam, e muito menos garantiam, o clima de segurança nas províncias do Ultramar.
A 11 de Julho, registava eu na minha correspondência:
“Ainda há pouco, quando estávamos a almoçar, ouvimos pela rádio o general Spínola a discursar... muito empolgado, mas não percebemos nada do que ele disse... Falava em pátria, e em sagradas parcelas da Pátria... Não sei em que sentido nem com que intenção. Não tenho dúvidas nenhumas em que perdemos a Guiné, e reconheço a esta gente o direito de serem independentes, pois se perdemos isto, foi por nossa culpa, pelo muito que se poderia ter feito e não se fez. Agora, que ninguém pense, quanto à Guiné, em patriotismos... São descabidos e sem sentido. É preciso, antes, ajudar estes povos para que não nos odeiem, pois se o fizerem talvez tenham razão para isso...  Isto é uma história muito comprida, que não dá para contar, nem numa carta; nem num livro, talvez.”
E continuava:
Oxalá eu tenha oportunidade de contar dentro de dois meses, quando for de férias. Ainda hoje, ia a atravessar a parada um soldado do PAIGC... Tinha ido à cantina, nossa, comprar cigarros. Lá demos um abraço à fula... Poderemos nós algumas vez virar de novo as armas contra estes  indivíduos que, apesar de tudo... nos estimam? Não sei o que sinto quando eles próprios me chamam... “meu capitão”. Para quê, a guerra? Por que morreram tantos, deles e nossos? Com que resultado? Os deles, talvez tenham tido sentido... Os nossos, meu Deus, os nossos talvez sejam o preço dos nossos pecados. Só tenho pena de que tenhamos perdido este povo, que o não tenhamos sabido conduzir, que o não tenhamos sabido salvar, e que agora, sem conhecerem outra coisa, fiquem abandonados a sistemas comunistas.
Mas o futuro era ainda desconhecido, meras hipóteses, ao sabor dos “caprichos” dos “nossos amigos”. Assim, prosseguia no meu apontamento epistolar:
“Dentro de 20 dias já não estaremos, de certo, aqui. Não sei para onde vamos. Deus queira que tudo se resolva em bem, pois às vezes nestas saídas há alguns extremismos. Oxalá que não!...“
Tínhamos, então, recebido intimação do PAIGC para abandonarmos Pirada até ao dia 20. Entretanto, exigiram  que abandonássemos Bajocunda (onde estava uma nossa companhia):
“Hoje, a companhia de Bajocunda, a 14 km daqui, recebeu ordem para sair dali no prazo de 24 horas!... Veio de Bissau (de avião) um delegado do Q. G., e foram lá falar com “eles” (PAIGC)... Ficou o prazo protelado até ao dia 15 à tarde”.
Quer dizer: de um momento para o outro, os prazos encurtavam, e nada podia fazer prever o futuro, já que o presente era também instável. Em face disso, e comunicado o “ultimato” a Bissau, no dia 12 de Julho apresentou-se em Pirada o Cmdt-chefe – brigadeiro Fabião – acompanhado de elementos do quartel-general e algumas individualidades do PAIGC acreditadas junto daquele Comando. Disseram estes últimos que, a nível superior, o Partido não tinha dado nenhuma ordem nesse sentido, e reuniram com os elementos do partido instalados junto de Pirada para esclarecer a situação. Depois de prolongada conferência entre eles, a situação de iminente abandono das posições foi assim anulada. Voltámos a respirar... Até quando?!...
Como o PAIGC tinha retomado as suas posições a sul de Pirada, era frequente ver dentro da área do nosso quartel elementos da sua “tropa”. Confraternizavam com soldados nossos, e, às vezes, “iam longe de mais” nestas confraternizações de amizade. A tal ponto que registei o seguinte apontamento:
“Ontem (12 de Julho), dois soldados deles (guerrilheiros, antigamente chamados “turras”) estavam à tarde aqui no quartel, junto da cantina das praças, “com um grão na asa” (embriagados). O oficial de dia foi chamar um dos chefes deles para os vir buscar, antes que os “copitos” fizessem qualquer anormalidade. O tal chefe “foi aos arames” (irritou-se), e dizia que eles não tinham autorização para beber (cerveja). Lá foram para o acampamento, e parece que lhes deram uma valente sova”.
Outro aspecto algo insólito, que respigo do meu arquivo epistolar:
“Ontem de manhã, veio à fronteira o “Q. M.” (o já referenciado comandante do PAIGC da zona Norte). Veio entregar as armas que outro dia tinham roubado de noite aos destacamentos de milícias. Vinha também despedir-se, pois ia para Moscovo. Esta saída dele daqui da zona foi arranjada por influência dos nossos Chefes, pois o sujeito era um bocado rude e. agora que a guerra acabou, estragava um pouco a acção politica. Traziam um unimog (deles). Esta viatura avariou e daqui por um bocado estava ela a entrar no nosso quartel, a reboque de um unimog nosso, para ir à oficina reparar. Foi uma coisa pouca e rápida. De vez em quando, vêm-nos pedir gasolina para bicicletas a motor que eles utilizam. Ontem chegaram-nos a pedir gasolina para o tal unimog. ...Como as coisa se passam aqui! Alguma vez se pensou ser isto possível? No Vietnam, assinaram acordos ... mas a guerra continuou; aqui os acordos ainda não foram assinados, e contudo a guerra acabou efectivamente. E não há ódio entre aqueles que se combateram. Mas isto não pode durar sempre, indefinidamente. Isto não é solução nenhuma. É uma transição. ... A verdade é que isto só tem um caminho: o reconhecimento da independência, e arranjar a melhor maneira de irmos embora sem atropelos.”
Este comentário era motivado pela situação que se vivia em Lisboa, a nível governamental, onde parecia haver um desconhecimento completo da situação real que se passava nos territórios ultramarinos, e na Guiné já não havia ponta por onde se pudesse pegar, para alterar o curso dos acontecimentos.
Em Portugal... No torrão-sede europeu de uma Nação pluricontinental e multi-racial, tinha deflagrado uma revolução, iniciada por um “golpe de Estado... Os golpes de Estado, substituem governos; as revoluções, que geralmente são iniciadas por aqueles, e se lhes seguem, abalam as estruturas, destroem e reconstroem poderes e sistemas, quase sempre sem tento e destino, e nunca se sabe onde vão parar... Era essa a sensação que alguns daqueles que, longe da família, cumpriam missão de soberania por terras de África, experimentavam, sem poderem modificar o curso avassalador dos acontecimentos, mas cuidando por não deixar a honra, sua e de um Povo, espezinhada pelas pedras da calçada da História.