quinta-feira, 30 de abril de 2009

Para que da Memória se faça História

Apontamentos de um soldado em África - 10
Almas brancas de gente negra
O negro de África constitui, para aqueles que pela primeira vez contactam com a sua vida e a sua maneira de ser, um autêntico mistério, cuja curiosidade em desvendar se torna motivo de grande interesse. Já algumas vezes tive aqui oportunidade de referir alguns aspectos do comportamento dos nossos irmãos negros, mas não será demais voltar ao mesmo assunto e alargar um pouco o panorama em observação.
Há quem olhe para os povos africanos, para aqueles que ainda não assimilaram em profundidade a cultura do nossa civilização, vendo neles o protótipo do homem primitivo... Surgem, por outro lado, opiniões que se afastam um bocadinho desta linha de pensamento, vendo nessa gente, não um tipo primitivo, mas uma cultura diferente, dentro dos limites naturais do seu desenvolvimento, para o que a palavra “primitivo”, adquire um sentido mais remoto e diverso.
Não importa quedarmo-nos nesta discussão, mas talvez não seja descabido apontar o facto seguinte: muitos que vêm para África julgam, infelizmente o temos de confessar, ver no preto o tal primitivo... e, o que é de muito lamentar, estendem o seu conceito para além da capacidade técnica, instrumental do nativo, para situar na sua própria alma uma espécie de insuficiência espiritual, que o impede de se aproximar dos nossos ideais, das nossas maneiras de sentir, justificando, ao mesmo tempo, para com ele, um tratamento diferente, às vezes aviltante.
Assim, tenho assistido já, terrivelmente embaraçado por tal, a ditos tendenciosos, por parte de brancos a negros, que nascem de um falso complexo de superioridade rácica... quando, afinal - e com facilidade isso se deduz de um pouco de experiência no meio - a mentalidade desses brancos é manifestamente inferior à dos negros!... É que a falta de preparação para a missão social tão delicada e espinhosa como a que ora nos chama, pode levar a julgar o negro como um ente que só tem a receber e nada a dar... Erradamente, aceitamos a ideia de que tudo o que o branco fizer, o preto tem de aprovar, porque para ele isso só pode servir de bem... Não penetramos suficientemente no seu íntimo, e, por isso, nem sequer procuramos saber o que ele pode pensar. Deste modo, não o compreendemos, e atingimos insucesso quando lhe pretendemos impor um determinado “status”, sem olhar para aquilo que sempre constituiu para ele a maneira normal e certa de existir.
Na verdade, o nativo olha para nós com os mesmos olhos com que olhamos nós para ele, com o mesmo espírito observador e crítico. Ele julga os nossos actos pelos padrões que possui e, mesmo que o não faça exteriormente, no seu íntimo aprecia-nos com admiração, ou lamenta-nos com indiferença. E, então, se nós mesmos entramos em contradição perante ele... Se lhe dizemos que isto é assim e se faz desta maneira, e procedermos de outro modo... Mais valera não começar! Quando em certa ocasião disseram a uma indígena que tinha de ir à escola para aprender a ler e a escrever, ela respondeu, simplesmente, que também havia muito branco que não sabia ler...
A justiça é para os africanos uma coisa sagrada, que sentem de modo apurado. E nós temos de nos mostrar absolutamente à altura de os servir neste aspecto. Se nos caçam uma falta, nunca a esquecem, e ficam bastante chocados... Tanto mais, quanto, pelos seus próprios meios, menos possibilidades têm de colocar as coisas nos seus devidos lugares.
Outro dia, um rapaz, tocou na buzina de um carro. Chamei-o e admoestei-o. O rapaz ficou atrapalhado... mas mais atrapalhado fiquei eu, quando um outro, do mesmo grupo, se adiantou até mim, dizendo-me abertamente: “- Eu também toquei”!... Fiquei sem saber o que fazer: se ralhar, se calar-me. Em voz mais branda, fiz-lhes, então, compreender o mal praticado, e aconselhei-os a não repetirem a acção.
De outra vez, prometi qualquer coisa - que agora não lembro o quê – aos miúdos da escola. Não cumpri tão depressa como seria para desejar, e então um deles me disse na primeira oportunidade: “ - Tu mentiste”!... Vários casos poderíamos aqui apontar comprovativos de que a alma negra pensa e sente como a nossa, e tem bem arreigados os sentimentos de pudor, de respeito, de gratidão, de amor, enfim, aqueles tesouros que alguns pensam ser apenas apanágio da gente branca.
Fui um dia fazer umas compras a uma aldeia. Anteriormente, já lá tinha ido com um capelão militar, e este mostrou-me um pequerrucho de quem era padrinho de baptismo. Desta última vez, perguntei ao soba pelo rapazito, e dentro em pouco apareceu a mãe trazendo-o ao colo. Ali mantivemos por momentos agradável conversa. Quando me preparava para vir embora, fui informado de que a mulher queria oferecer-me alguma coisa... Esperei, e ela apareceu com... um pequeno molho de tenras couves!... Quis pagar-lhe, mas não aceitou dinheiro. E fiquei a pensar naquele gesto... e rio valor que ele teria no coração daquela pobre mulher, expressando desse modo a sua gratidão!
Vi, noutra ocasião, um cabo Sipaio dizer para uma mulher ainda nova: “ - Até logo, mãe»! Admirado, perguntei ao preto por que chamava mãe àquela mulher, uma vez que ele não podia ser filho dela. Explicou-me que era uma forma de prestar respeito... Ela era uma mulher; por isso podia ser uma mãe!... Semelhantemente, ouvi, em outra ocasião, uma mulher chamar sogro a um homem já de certa idade, e ao qual nenhum laço familiar a unia. Compreendi, então, quanto eles respeitam a pessoa humana! Quando conversam, sempre se tratam por “você”, e gostam imensamente de apertar a mão, em cumprimento, quando se encontram na rua. Atitudes que envergonhariam certa gente chamada civilizada.
Perscrutando o íntimo destes nossos irmãos, nós encontramos na sua alma uma riqueza imensa. Riqueza que muitos desconhecem... Que nós próprios contaminamos, por vezes, com os nossos defeitos e os nosso vícios... Riqueza que falsas ideologias políticas e materialistas pretendem avassalar em nova “escravatura”, sob as ondas da revolta universal.
Saibamos nós, portugueses, cientes da nossa missão humana e cristã, realizar aquilo que Deus nos pede e a Pátria exige, orientando à luz da Verdade a alma destes nossos irmãos de África.
Angola - Janeiro 1964

Para que da Memória se faça História

Apontamentos de um soldado em África - 9
Para Além das Armas
Contemplo aquele pequenito ali a brincar... Traquina, de sorriso franco, aberto... Parece que vai a cair em desequilíbrio na magreza das suas pernitas negras, mas, saltitando, consegue suster-se...
Quando veio, gritava aterrado de medo, ao ser observado pelo médico. Parecia um bicho-do-mato... O mesmo acontecia às outras duas criancitas, mais ou menos da mesma idade, que esta família trouxe. Mas, agora, a sua memória esqueceu os conflitos emocionais que abalaram a sua alma pura e inocente. Já não foge, aterrorizado... Antes, corre atrás de nós às gargalhadas e, por vezes, até, desata em choro por largar os soldados, quando a irmã o vem buscar para junto dos seus.
Ao demorar o meu olhar sobre esta criança, desenha-se-me no espírito uma interrogação inquietante... Interrogação que transponho para além do tempo, como que auscultando na penumbra do futuro terríveis dramas pessoais, silenciosos, mas cruéis.
O mundo soube das tragédias que o terrorismo espalhou pelo norte de Angola... Soube e sentiu o abalo forte causado por tão macabros acontecimentos. A rápida decisão do Governo em utilizar prontamente as Forças Armadas obstou a que as consequências fossem ainda mais desastrosas.
O cair da noite trazia para Luanda horas de amargura e desassossego. Nos musseques, a população pervertida batia com paus e soltava clamores ameaçadores, prenunciando uma arremetida ao centro da cidade. Alguns civis saíram para a rua, de armas na mão, mas insuficientes para barrar uma avalanche da multidão endemoninhada.
As forças da ordem chegaram ainda a tempo, e pouco a pouco se foram recuperando as terras calcinadas pelo calor do ódio. Quase três anos passaram... Muitos esqueceram já o barulho feito pela revolta... Esqueceram aqueles que felizmente não sofreram de perto as feridas abertas pelos golpes traiçoeiros, mas não o podem esquecer nunca aqueles que viram seus lares em derrocada e mortos os seus mais queridos parentes. Não o podem esquecer aquelas famílias que vivem ainda sob a pata do inimigo... e, por conseguinte, nunca poderão esquecer essas horas cruéis aqueles que receberam sobre os ombros a espinhosa mas nobilíssima tarefa de combater esse terrorismo que tudo destrói e torna a vida fardo impossível de suportar.
Olho esta criança... e outra... e outras... e penso naquelas que não posso ver mas que notícias trazem ao meu conhecimento... e também nas outras tantas que não escapam à observação das estatísticas. Olho, e vejo o seu sorriso inocente a perder a graça, a sua face a entristecer, o seu olhar, mais penetrante, a situar-se para além do horizonte... para quando a sua inteligência, mais desenvolvida, começar a compreender a dura realidade que envolve a sua existência! “Havia algumas noites – contava-nos, outro dia, um pacato nativo - que homens vinham às casas e induziam em segredo as famílias a fugiram para a mata. Comigo, nunca falaram, porque tinham medo que eu dissesse na Administração, onde exercia a profissão de cozinheiro. Então, um dia, deu-se a «confusão»”.
Os povos fugiram para as matas, a habitarem locais antigos, instigados e coagidos por elementos subversivos que obedeciam a planos cuidadosamente preparados. Aqueles que quiseram ser fiéis à sua vida ordeira sofreram as terríveis consequências da onda de crimes e destruições movimentada pelos terroristas. Na ocasião da fuga, os que não estavam em casa ficaram para trás... Muitas pessoas se desgarraram de suas famílias... Muitas crianças ficaram abandonadas! Tenho na minha frente uma edição da “Cáritas” que refere um apelo levantado pelo governador do distrito do Uíge a chamar a atenção para milhares de crianças pretas abandonadas e em perigo de perecerem.
Aqui na escola há uma dezena de rapazes e duas rapariguinhas ternas e despreocupadas. Alguns destes pequenos vivem em casa de comerciantes brancos, porque não têm família. Se lhes perguntamos pelos pais... a resposta é triste, e, de olhos no chão, apenas dizem: “- Foi no capim...”. A menina mais velha, com doze anos, foi recuperada há alguns meses na mata pelas nossas tropas. Lá perdeu, ao que parece, a mãe e um irmãozinho... num drama pungente.
Alguns povos se têm apresentado, noutras regiões, conseguindo quebrar os grilhões que os prendem aos malfeitores. Nesta zona em que estamos, a pressão do inimigo é forte... Os guerrilheiros, aquartelados mais no interior das matas, em pontos de difícil penetração ou nas cavernas dos penhascos mais agressivos, servem-se da gente indefesa como fonte de manutenção vital. Em sítios próprios, obrigam-nos a cultivar hortas e a proceder ao abastecimento dos bandos escondidos. Para mais facilmente os reterem, geram sobre eles um clima de duplo terror: eliminam, por um lado, aqueles que tentam regressar às suas antigas sanzalas, e, por outro, induzem-lhes a convicção de que a tropa matará todo o preto que encontrar na mata, e nesse objectivo exploram todos os motivos aproveitáveis. Deste modo, é fácil compreender porque mesmo mulheres e crianças fogem como gazelas perante a aproximação da tropa, quando esta, em qualquer batida, atinge zonas habitadas.
Quando uma patrulha nossa conseguiu, há cerca de um mês, recuperar a família que agora aqui vive sem temores, com assistência, e ganhando já dinheiro por serviços prestados, uma mulher indicou a outra, do mesmo grupo, que lhes iriam cortar o pescoço... Um homem já de certa idade, o chefe da família, perguntava a medo quando lhe iam dar o tiro... Tal era, pois, o terror que amedrontava o seu espírito.
Com esta gente, veio esse rapazito engraçado, que nos cativa e comove com um simples sorriso... Seu pai morreu no mato, em consequência de doenças ocasionadas pela alimentação deficiente, que mais difícil torna a vida desses povos refugiados. A mãe fugiu com outros nativos mata adentro, na altura em que as nossas forças chegavam. A memória dos seus três anitos é leve demais para reter factos tão tristes... Mas um dia, voltará ainda a sentir o drama da sua vida... como tantos outros... no silêncio da sua consciência já mais aberta à compreensão do que o rodeia!
Numa noite trágica de ódios recalcados e de ambições desmedidas, desabou sobre as terras de Angola uma tempestade sangrenta de rancor e de crueldade...
Mas também numa noite fria, há muitos anos, uma nova Luz rasgou a noite dos tempos, o negrume dos céus da humanidade perdida, e um clamor magnífico, suave, ecoou sobre o mundo... Era uma mensagem de Paz! Uma mensagem de Amor para todos homens!...
Neste NATAL, de 1963... lembrai junto a Jesus, no Presépio, estas almas despedaçadas que sofreram, sofrem... e ainda hão-de sofrer por muitos dias e anos as consequências desse cataclismo cruento que dilacerou a nossa Pátria!... Lembrai também os soldados, que lutam nesta guerra por uma esperança de paz!... E por que havemos de esquecer, também, os próprios que nos combatem... aqueles que foram pervertidos?!...
Possa a LUZ dessa noite santa inundar todos os povos, para que todas as almas encontrem esse caminho de AMOR e de VERDADE que há dois mil anos se abriu sobre Belém!
Angola - Dezembro 1963

terça-feira, 21 de abril de 2009

Para que da Memória se faça História

Apontamentos de um soldado em África 8
O laicado católico nas missões africanas
Talvez nunca o pensamento da nossa gente fosse tão dirigido para os problemas missionários como nos momentos actuais. As questões que nesta época conturbam o mundo vieram abrir os olhos àqueles que ainda não tinham deixado empedernir de todo o seu coração. As necessidades prementes de muitos homens, mulheres e crianças, necessidades vitais, de sobrevivência, a contrastar com a vida faustosa de muitos, em outros pontos distantes, levantaram um brado suplicante à caridade dos povos. E, perante a desesperada situação dos fracos, os abastados e os remediados, ao fim e ao cabo todos os que podem, têm de compreender que a hora exige que se dêem as mãos para uma ajuda fraternal, para um esforço abnegado que salve a comunidade humana da desintegração no ódio, que a impeça de mergulhar no turbilhão da desordem. Aos cristãos conscientes da suprema importância da sua missão no mundo, que culmina numa elevação última das almas a Deus Eterno, a premência da chamada é ainda maior, visto que, num derradeiro propósito de salvação material, a humanidade pode ser habilmente conduzida a escolher o caminho do caos e da perdição.
O problema presente faz-se sentir agudamente em África, onde, como noutras partes da terra, o vírus da revolta já se alojou nos corpos e nas almas. Em face do progresso vertiginoso, e nem sempre correndo na linha do bem comum, experimentado pelas nações de outros continentes, os povos africanos, a quem a técnica levou de repente o contacto com o resto do mundo, instigados por mentes ardilosas e interesseiras, ou dando expansivo a recalcamentos múltiplos (que, infelizmente, se fundamentam em alguns casos práticos), pretendem tomar a todo o transe uma posição destacada na conjuntura mundial. E os meios e as oportunidades escolhidos para tal fim nem sempre são os mais ortodoxos (criando certos embaraços no contexto social).
A Igreja, interpretando com luz claríssima esta amargura da humanidade, oportuna como sempre e mais incisiva do que ninguém, transmite à cristandade sábios ensinamentos e convites frequentes, a fim de que todas as inteligências e todos os corações possam formar um exército que irradie verdade e amor para a luta que ora se trava no mundo.
Já foi tempo em que a religião era considerada como acessório da vida e função exclusiva dos padres e das freiras. Valores primorosos se levantam hoje no seio da Comunidade Cristã, numa fecunda união de clérigos e leigos, para a santificação cada vez mais frutuosa da vida sobre a terra. Dirigida a um Fim Supremo, ela tem de ser impregnada, no seu processo, do perfume que emana desse Fim. Em todas as actividades humanas existe um cunho de espiritualidade, uma presença efectiva de Deus. Desta forma, o laicado católico não pode subtrair-se ao serviço que lhe exige o Senhor da vida, quer nas operações mais comuns do trabalho diário, quer na participação real na actividade militante da Igreja, como na glorificação a Deus no papel que lhe reserva a Liturgia.
Missionar, então, não pode ser visto hoje como o poderia ter sido outrora por olhos menos abertos. Não se resume apenas na ministração de ensinamentos catequéticos... Não se pode confundir com uma acção de simples proselitismo religioso. Missão, para nós, católicos, comporta um sentido mais largo e mais profundo... É dar civilização - Civilização Cristã! É levar Cristo à vida das almas e as almas a Cristo através da vida. E para esta obra grandiosa, o leigo tem de marchar ao lado do padre; a técnica e a assistência social têm de formar um todo operante, transformador, com a função religiosa. Cristo tem de viver nas almas e nos corpos; na igreja, na escola, no lar, na rua e no trabalho; na saúde e na doença; na alegria e na tristeza.
Ide !...
Este imperativo, ao mesmo tempo tremendo e sublime, dirige-se a todos os corações e obriga todas as consciências. A Voz do Vaticano II é bem a interpretação desta chamada geral a que urge obedecer. Foi-me contado, há algum tempo, que numa igreja de Luanda se apresentaram ao sacerdote dois recém-casados que pediam as bênçãos matrimoniais. Tratava-se, salvo erro, de um casal espanhol que se dirigia para uma cidade do sul de Angola, onde serviriam num hospital civil. Ele era médico; ela, se a memória não me atraiçoa, era enfermeira. Custa-me conceber que os seus propósitos fossem motivados por meras questões de interesse pessoal...
Iluminado por este quadro raiante do generosidade, surge-me no pensamento a terra que me roubou um pouco do coração, e através da qual a África me começou a desvendar alguns dos seus misteriosos e fascinantes segredos: Tomboco. Ali, vivem várias gentes, assistidas por uma missão católica da Congregação do Espírito Santo, a cujo trabalho o terrorismo veio trazer sérias dificuldades. Antes da “confusão” - nome que os nativos dão à revolta... - um grupo de religiosas ali espalhava também a sua benéfica influência. Rapazes e raparigas, homens e mulheres recebiam nas duas casas da Missão a formação cristã, a luz da vida civilizada, que ainda hoje se vê luzir na face daquele povo, mas à qual pretendem alguns negar a fonte, com frieza. E ao trazer novamente à memória essa terra e a sua gente, que, com saudade, por dever do cargo tivemos de deixar para trás, eu penso também nas múltiplas bênçãos que ali cairiam se um grupo de leigos bem formados e instruídos para tal fim ali permanecesse um certo tempo julgado óptimo, para, num trabalho de mãos dadas com a Missão Católica, assistirem e encaminharem na vida aqueles que para nós voltam a face comovente e suplicante! E Tomboco não é caso único... É apenas um exemplo !
Mas, se agora olharmos aqueles que vêm do outro lado... aqueles que deixam a mata, onde a vida constitui terrível pesadelo debaixo da pressão aterradora dos criminosos, então o nosso peito sangra perante a insistência da chamada à caridade das almas generosas.
Na II Semana Missionária, em Coimbra, depositavam-se amplas esperanças naqueles jovens que escolheram Deus... Que o Senhor sopre nas suas almas o alento vivificador capaz de impulsionar as vontades num movimento novo, assistido por quem de direito, que dê às nossas gentes rurais do Ultramar o caminho da prosperidade material e espiritual, contra a miséria fatal e a desordem ideológica a que levam as influências tendenciosas do exterior; que dê ao coração do nosso povo plurirracial a paz necessária à frutificação daquele Amor que Cristo glorificou no monte do Calvário. Todos podemos ser desse movimento; se não trabalhando de modo efectivo e actual, ao menos orando (menos?! ... ) para que tenhamos muitos e santos missionários, e para que os leigos saibam ocupar o seu lugar nas terras de missão.
Angola - Novembro -1963

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Para que da Memória se faça História

Apontamentos de um soldado em África - 7
A lição dos Nossos Mortos
Ao tempo em que escrevo estas palavras, discute-se na ONU o problema (problema!...) de Portugal em África. Grita-se, nesse Areópago internacional onde se respira confusão, ignorância e ódio, a palavra «Independência», pedra dura que muitos nos atiram, para que abandonemos os nossos territórios sagrados.
O soldado é apolítico, mas nunca será um insensível perante os berros da Política - no caso presente, da Política Internacional -, se eles ferem o que de mais profundo consolida o seu coração de militar - a Pátria. É para ela que ele existe, para o seu povo, para as suas tradições, para a sua história; é por ela que sofre os ardores da luta e enfrenta as garras do perigo; é por ela que morre, num holocausto generoso e heróico. E, muitas vezes, como na conjuntura que nos trouxe à terra africana, ele encontra, a complementarem-se no seu ideal, a Pátria e a Fé, o seu Povo e o seu Deus.
Independência!...
Este grito tendencioso não pode deixar de me trazer à mente a recordação de alguns camaradas caídos, há bem pouco tempo, no campo da honra, no cumprimento da sagrada missão. Ainda não vão longe os dias em que trabalhávamos lado a lado... Num momento, a guerra ceifou-os para sempre! A Pátria pediu-lhes o sacrifício supremo... E o seu exemplo pede-nos que sejamos fiéis, como eles o foram; que continuemos fazendo aquilo que eles já não podem lavar a cabo; que honremos a sua memória, o seu nome; que protejamos os seus lares, como eles quiseram guardar os nossos até à última gota do seu sangue!
Não! Os nossos mortos não nos deixam capitular perante as arremetidas estóicas e ambiciosas do inimigo. As vidas que partem clamam um Portugal uno e eterno, e seria traição horrenda não abrir a nossa alma ao seu brado, não prosseguir com redobrado vigor a defesa deste solo regado pela sangue de várias gerações.
Independência!... Para quem?!... De quê?!...
Portugal deu ao mundo novos mundos, ao mesmo tempo que arruinava na base o poderio dos que ameaçavam a Europa. Encontrou gente em estado selvagem, e à barbárie contrapôs a luz de uma civilização. Os ventos da História ... esses mesmos ventos que muitos pretendem agora fazer soprar de novo, levaram uma determinada delimitação geográfica aos territórios que possuímos. E à mistura de gentes, de raças, de culturas, de dialectos, de costumes e tradições, oferecemos uma unidade de civilização, sem destruirmos o que de seu era lícito manter. Demos uma Língua. para se comunicarem mais livremente, demos a nossa maneira de ser; demos a nossa Fé e a nossa história. Ensinámos o seu coração a sentir como o nosso; a amar no mesmo Amor, a querer na mesma vontade, a ansiar na mesma esperança. Fundiram-se as raças e as almas, em África, na Ásia e na Oceânia, e nestes continentes surgiram novos valores, rasgaram-se mais largos horizontes. Não usurpámos direitos, não acorrentámos nações. Libertámos gente do primitivismo, estendendo até ela o calor do nosso lar. Completámos uma Nação, demos uma Pátria ...; arranjámos mais irmãos. Aqueles que nos combatem não compreendem (não querem compreender...) que um metropolitano se sinta irmão do angolano, que o homem de Cabo Verde não seja um estranho diante do goês; que o moçambicano se ache no seu país, quando visita a Madeira, Açores, Guiné ou Timor. É, de facto, grandioso de mais para quem se habituou a largar ao sabor das conveniências; para quem se habituou a ser padrasto, em vez de pai; para quem se habituou a receber, em vez de dar!... É de facto grandioso de mais, para alguns, ver nas escolas, nas universidades, nos seminários, nas oficinas, nas fileiras do Exército... lado a lado labutando num ideal comum, os portugueses dos territórios geograficamente mais afastados; lado a lado, brancos, pretos, amarelos e mestiços. E como é belo ouvi-los falar a mesma língua, apreciá-los sentir do mesmo modo! Um português só se apercebe verdadeiramente da dimensão da sua nacionalidade, quando se vê em presença de um seu irmão de outro continente.
Não há, pois, um povo a pedir «Independência»! Há, sim, insurreição organizada de alguns, instigada por mentores ambiciosos, que pretendem avassalar o mundo através de uma nova ideologia; insurreição instigada por quem tenta a todo o custo destruir este nobre conceito de Pátria no coração dos homens; insurreição que estaria já extinta de todo, se não fossem as infiltrações de mercenários que não sentem pejo em ligar o crime ao seu modo de viver.
Defeitos?... Males?... Quem os não teve, e não continua a ter? Mas é isso um problema internacional? Quem se arroga a direito de entrar na casa do vizinho, sob pretexto de querer resolver os seus problemas familiares? As dificuldades do Ultramar Português apenas a nós dizem respeito, assim como as das outras nações somente a elas pertencem... E não são estas menores do que as nossas! Não há comunidade nenhuma que se possa vangloriar de não ter questões de que haja de se preocupar. Para enfrentar os problemas que nos aparecem, é a nós, portugueses, e a todos, que incumbe fazer esforços. Já há muito que são réprobos da Sociedade aqueles que colocam os seus interesses pessoais acima do bem comum.
Em vez de sairmos de África, agora, mais do que nunca, a ela nos temos de votar. Militares e civis, leigos e clérigos, técnicos e intelectuais, num viçoso florescimento de juventude espiritual, num enriquecimento cada vez mais largo e mais profundo da Raça Lusitana. O metropolitano não passará de um ente mesquinho e fechado, se não abarcar no seu ideal os valores que nascem nas terras de Além-mar, e o ultramarino não pode, sem se atraiçoar, desprezar o berço da sua nacionalidade. A vocação africana..., a vocação ultramarina, deve encontrar cada vez mais acolhedora morada no coração de todos os portugueses, especialmente agora, que o mundo se levanta contra nós.
Foi, por alguém, não há muito, levantada uma justificada pergunta: «Como serão os nossos jovens quando regressarem do Ultramar?». A resposta é de aguda delicadeza. Mas, se todos nos compenetrarmos das pesadas responsabilidades que nos incumbe suportar; se, nos diferentes campos da vida, soubermos conduzir os nossos actos no cumprimento fiel da missão que nos é confiada pelo momento histórico e pelas circunstâncias; se soubermos afirmar ao mundo que ainda somos portugueses e cristãos, não teremos que recear as consequências desta campanha que chamou a juventude fora do seu lar.
Incomparável mercê que a História te concede, ó Portugal, baluarte no Ocidente da civilização que a Europa parece deixar vacilar! Que o teu Povo se mostre ao nível dos teus desígnios sagrados, e ouça o clamor dos teus mortos a pedirem fidelidade ao seu exemplo!
Angola - Outubro de 1963

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

A Coragem de Viver

Já lá vão cerca de dois anos, vi, numa papelaria desta minha terra, exposto um livro que, pelo seu título, me chamou a atenção. Peguei nele, folheei-o, li algumas pequenas passagens, e fiquei logo impressionado pelo seu conteúdo. Adquiri-o, e li-o todo com ávido interesse.
Simplesmente impressionante! Coragem de viver!... Sem dúvida, mas também testemunho de muito amor e dedicação dos protagonistas... Familiar e profissional.
Uma menina que nasceu num parto difícil, e, por isso, ficou marcada com deficiências físicas, motoras, para toda a vida.
Uma família exemplar, com os progenitores a dedicarem-se, devotamente, a sua filha, para que ela conseguisse usufruir a melhor qualidade de vida, tanto no campo da saúde como no âmbito da sua educação e formação integral (felizmente, a criança não tinha ficado com sequelas nos seus dotes de inteligência). Um médico, que a cerca de duas centenas de quilómetros de distância, se empenhou totalmente a multiplicar os cuidados e a dilatar a esperança de um futuro promissor para a sua paciente. Exemplo de abnegação pessoal e de muita competência profissional e humana.
Depois... O dedo do Altíssimo a desenhar o percurso de tudo isto na vida atribulada da menina! Os acontecimentos «misteriosos» de que se serviu o Espírito, para guiar por mão sobrenatural os passos desta família! O lugar privilegiado onde se acendeu um farol de esperança, que veio iluminar o caminho a percorrer (capela da Senhora da Saúde, nos Carvalhos). Nada acontece por acaso, neste mundo. O que é preciso é estarmos atentos e disponíveis, para, no momento certo, reconhecer os sinais de Deus.
Não temos qualquer intuito publicitário na divulgação desta obra. Contudo, achamos que «A Coragem de Viver» é um autêntico Evangelho de vida, uma Boa Nova de salvação para todos os que desesperam dos seus dias mais ou menos dolorosos, mas sobretudo uma voz gritante contra aqueles que propagandeiam o aborto e a eutanásia como solução para a falta de coragem para viver e abraçar o sofrimento, que polarizado na Cruz de Jesus Cristo, é caminho de redenção e de felicidade eterna. Não se pode ler este livro, esta autobiografia, sem verter, de quando em vez, algumas lágrimas... É este, outro condão que o escrito possui – penetrar até ao íntimo mais profundo de nós mesmos e amolecer o nosso coração petrificado pelas nossas auto-suficiências, pelo nosso edonismo ávido de prazeres, pela nossa insensibilidade diante do sofrimento alheio.
Susana Santos... não é uma «deficiente»! Susana Santos é uma heróína, como heróis são os seus pais e o médico que a tem acompanhado no seu longo calvário de dor.
A Susana, uma jovem de 31 anos de idade, foi aluna da Escola Preparatória P. António Luís Moreira, e cursou a faculdade de economia da Universidade do Porto. Há dias, encontrei-a com seu pai, num supermercado desta nossa terra. Não pude resistir a manifestar-lhes a minha gratidão pelo seu testemunho de vida. E o facto de trazer hoje, a estas páginas, este apontamento, apenas se deve à vontade de lhe prestar pública homenagem, e de bradar bem alto a todos os que isto possam ler, nestes momentos de crise colectiva que atravessamos, que, apesar de tudo, a Vida tem um valor infinito que é preciso defender e preservar, e que, contra todos os seus detractores e contra os profetas da desesperança, importa nunca perder, como todas as Susanas deste Mundo, a «Coragem de Viver».

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Para que da Memória se faça História

Apontamentos de um soldado em África 6
Forja de Portugueses
Trairia a minha própria consciência se, nestes apontamentos simples e despretensiosos, permitisse a lacuna formada pelo esquecimento do esforço heróico que, nos momentos que ora passam, a Juventude Portuguesa generosamente oferece à sua amada Pátria. E, para que isso não aconteça, a todos os jovens de Portugal dedico hoje as minhas palavras humildes, mesmo porque a tal intento me obriga a homenagem sincera que como português e como soldado devo prestar a todos, e principalmente àqueles que já caíram para que a Pátria mais se levante. Homenagem saudosa... para os que topei no mesmo caminho, e que agora só posso encontrar nas imagens... indeléveis... da memória. Que esta pequena meditação possa levar a todos, e àqueles que, não obstante o pesar dos anos, comportam alma de moços, um pouco dessa satisfação espiritual que brota do sentir vibrante e viçosa a alma de Portugal eterna no coração de seus filhos.
Ninguém desconhece, hoje, que estamos em guerra. Guerra de armas e de espíritos, guerra no espaço limitado do nosso território e no âmbito mundial das Assembleias de alto nível, guerra de sobrevivência de uma civilização. Ninguém desconhece, também, embora a mesma realidade seja recebida sob diversos ângulos, que capitular nesta batalha significaria encolher-se perante a afoiteza malévola do inimigo, e deixar-se envolver por um turbilhão de interesses contrapostos e devassos. E ninguém pode desconhecer ainda que esta é uma guerra de todos e terrível, onde o mais pacífico e afastado pode ser o mais acérrimo e próximo instigador; onde os inocentes têm, mais do que em outro qualquer conflito, insegura a sua própria integridade social e humana.
Guerra demoníaca, onde o ódio surge na sua mais acentuada manifestação, e onde, por isso mesmo, o AMOR é a mais eficiente e delicada arma de combate. Guerra fria e quente, que leva os homens a uma permanente desconfiança naquilo que os rodeia, e que obriga muitos, porque a desconhecem em profundidade, a combaterem-se a si próprios, iludidos pelas formas superficiais, e não vendo os resultados mais distantes consequentes dos seus actos. Guerra, enfim, que uns ganham e que outros, com idênticas intenções, podem conduzir a infelicidade da derrota. Foi esta a guerra que nos bateu à porta, como já outras nações visitara, e continua a ameaçar a mundo. Foi para esta guerra que os valores vitais da Nação se viram de um momento para o outro chamados a intervir.
Sob muitos aspectos podem ser consideradas as implicações de uma guerra nos diferentes campos da vida social e particular. E não é, pois, com desacerto que se fala das diferenças encontradas nos períodos de após guerra. Também nós poderíamos desenvolver um estudo neste campo, e inferir de um variado número de dados e pressupostos as consequências prováveis e reais da guerra em que lutamos. Umas seriam mais próximas, outras mais distantes; umas boas, outras más. Mas não foi com este fim que me propus escrever.
Interessa-me, antes, aqui, agarrar uma característica imediata, uma realidade palpável, que a situação presente veio, não descobrir, mas levantar perante nós próprios, afirmar ao própria mundo... que talvez desconfiasse das páginas históricas cantadas por Camões. A batalha que se abriu perante o povo português foi uma demanda ao valor da nossa Raça. E, sem demoras, mas com intrepidez, a resposta foi, desde o começo, decisiva, retumbante! O braço lusitano mostrou possuir ainda a mesma força antiga... e a alma, os mesmos sentimentos e a mesma fé. É por isso que eu chamo a esta guerra em que na África nos batemos (e em todo o mundo ... )
«Forja de Portugueses»!...
Desde a casa fina da cidade, à cabana sóbria do pastor serrano, nas províncias metropolitanas e nas terras ultramarinas, tal como no antanho, diante dos arrojados empreendimentos das descobertas, mães portuguesas deixaram cair pela face lágrimas de saudade. Ontem, as caravelas partiam com seus filhos buscando o resto de Portugal... Hoje, os navios continuam a sair barra fora, cortando as mesmas águas, traçando as mesmas derrotas, afirmando uno e forte, fiel e cristão, esse Portugal que os outros nos fizeram. O esforço empreendido nas horas do presente deixa escapar o mesmo perfume que emanava dos trabalhos do passado. É isso o que afirmamos ao mundo inteiro, e que vemos mais saliente na tarefa em que estamos empenhados. E, como naquele tempo.... havemos de vencer!
Forja de Portugueses!
Estes bravos rapazes adaptam-se a todas as circunstâncias, sofrem os sacrifícios e todas as dores, sentem agudos os espinhos da nostalgia, mas conservam o mesmo espírito heróico, a mesma vontade indestrutível, a mesma fé inabalável, o mesmo sorriso nos lábios, o mesmo coração generoso, a mesma alma de gigantes! Transmontanos, Beirões, Minhotos, Algarvios, Alentejanos, Madeirenses, Açoreanos, Caboverdeanos... da Guiné, de Angola.... enfim, de todo o canto de Portugal, aqui, todos sentem que são irmãos, filhos da mesma Pátria, lado a lado rindo e sofrendo... unidos lutando pelo mesmo ideal.
E não só estes! As cartas que recebemos dos rapazes que ainda estão na Metrópole, mas prestes a entrarem nas fileiras, confessam o seu entusiasmo, a sua doação, exprimem esse mesmo sentir dos que aqui já empunham armas para a defesa do solo sagrado. Na verdade, acendeu-se em África... uma forja de portugueses!
A juventude que aqui vem é temperada no fogo espiritual de uma Pátria que luta para continuar a senda histórica iniciada há séculos. É certo que o demónio e a fraqueza humana, aliados à agressividade e rusticidade das condições, a que se não pode fugir, tentam por todos os meios pervertê-la. E muitos serão os que sucumbem, e se afastam daquela linha de integridade que o bom cristão ambicionaria possuir. Mas, a esses, dai-lhes chefes dignos e mostrai-lhes bem clara a luz da verdade, e vereis que se levantam sem demora, para darem tudo o que de si a Pátria pedir. Forja de Portugueses!... Os que dela saírem hão-de envergonhar essa minoria que, buscando a ignomínia da vida fácil, apenas mais nela fazem do que construir castelos no ar, que se derrubam com o mais leve sopro de indiferença e desprezo. Valorosa Juventude! Em ti se realiza em glória PORTUGAL; em ti... que escolhes Deus para finalidade suprema dos teus sacrifícios! E vós.... os que partistes desta vida no decorrer da luta, segurai bem fundo, lá junto do Senhor do Universo, os alicerces da nossa Pátria amada!

Para que da Memória se faça História

Apontamentos de um soldado em África 5
Soldados de batina branca
Eram seis e meia da tarde, a passar, já. A noite, vencendo o receio do crepúsculo, começava a cobrir tudo em volta. A sineta daquela cruz tosca, feita de dois troncos de árvore, acabara de tocar as últimas badaladas. Ia começar a devoção do terço à Mãe Imaculada... o acto pleno de beleza e de singular conforto espiritual do Mês de Maria. No altar daquela capelinha tão simples e humilde, construída com ramos de palmeira, presidia a Rainha Santa Isabel, numa homenagem dos soldados de Coimbra. Duas Rainhas a velarem pela mesma Pátria amada!...
A oração começara, cheia de entusiasmo. Aos mistérios, elevam-se maviosos cânticos, que nos fazem sentir saudade e comoção. Saudade das mesmas cerimónias da terra natal – tão distante; comoção por aquele brotar de paz e louvor em terras que o ódio dilacerou e que olhos traiçoeiros vigiam.
O clamor daqueles soldados corria os ares. Talvez penetrasse por entre essas matas onde o perigo se esconde na frondosa vegetação... Talvez tocasse aqueles montes tão imponentes como inóspitos que avultam no horizonte! E se essa mensagem de amor conseguisse mover, no caminho, os corações dos que foram pervertidos... Se a solicitude da Mãe do Céu vencesse a dureza daquelas almas... Um dia, que Deus fará, elas ouvirão a Sua voz maternal... porque o Seu Coração há-de triunfar, finalmente!
- Eles já estão arrependidos - dizem os nativos que aqui vivem sossegadamente.- Eles passam mal, por lá. O preto não presta... O preto, na mata, apanha doença e morre – acrescentam. E tantos foram, na ilusão maligna!
De rica e densamente povoada, esta terra maravilhosa - este nosso novo poiso... - é hoje encontrada num abandono infecundo. E a devoção continuava, fremente, sincera, filial...
... Pelos soldados, que à guerra vão,
Senhora, escuta nossa oração!
Aproveitando o ensejo deste piedoso acto, queria hoje dedicar as minhas palavras a uma certa classe de soldados, às vezes esquecida entre os feitos barulhentos das armas bélicas. Esquecida, talvez porque as suas armas por de mais silenciosas para uma guerra de tiros, mas sumamente eficazes e oportunas para os que, mesmo nas lutas sangrentas, não deixam de sentir a necessidade de combater nas guerras da alma... De organizar a defesa contra a concupiscência feroz, contra o desespero aviltante, que nas horas de insegurança e desconforto armam perigosas ciladas ao espírito do homem.
Abnegados, voluntários no sacrifício, eles, esses soldados de batina branca - os bravos capelães militares -, deixaram tudo, ao chamamento da consciência, entregando-se com toda a sua alma ao serviço da Pátria, e por ela servem às almas e a Deus. Incompreendidos, por vezes, mal queridos, em tantas outras, eles sujeitaram-se a uma vida cheia de contrariedades e privações, tocando, em algumas ocasiões, o limiar da amargura… Apenas porque ouviram o brado aflitivo de tantas almas que foram tiradas ao afago terno do lar, que deixaram de ter presente a força espiritual da sua igreja, que viram ficar para trás o seu ambiente normal entre os amigos e as coisas queridas. Deixaram tudo, porque a Nação lhes pediu: - Vinde, que de vós preciso! -; porque o Senhor lhes disse, no seu foro íntimo: - A missão é nobre... Caminhai!
E ei-los por essa África escaldante a defender as almas dos heróicos militares, para que estes possam vencer as condições hostis a que o dever os trouxe, e empenhem todo o seu valor na luta contra o mal que o príncipe das trevas espalhou nesta terra de promissão... Para que eles encontrem, na hora derradeira - aqueles a quem Deus chamar no campo da honra - uma palavra de confiança, que lhes fortifique a fé, uma chama de amor que lhes traga o arrependimento submisso, e lhes abra, no perdão, as portas da Eternidade. Momentos inesquecíveis e gloriosos, esses que o padre vive - apesar de humanamente tristes - quando em seus braços entrega a alma a Deus, o soldado que perece no cumprimento do sagrado dever! Soldados de batina branca!...
Podeis vê-los no altar, celebrando o Santo Sacrifício antes das lutas; ouvindo as confidências dos rapazes; perdoando as suas misérias; de fato de combate, indistinguíveis entre os mais sujos e esforçados atiradores, penetrando nas matas e no capim, abraçados pelo perigo, mas confiando na Providência, para que os últimos sacramentos não faltem ao ferido de golpe mortal, ou mesmo ao inimigo, moribundo, arrependido.
Podeis vê-los, ainda, entre as populações pacíficas e laboriosas, acalentando, ensinando... missionando! Não são desconhecidas as obras de engrandecimento social que os capelães militares têm desenvolvido entre as populações nativas. Os jornais proclamam-nas sem rebuços.
Há tempos, numa patrulha de reconhecimento feita a um monte próximo, o capelão acompanhou-nos. De espingarda em punho - que pedira a um soldado para esse mesmo fim - ele tomou também a dianteira, a abrir caminho por entre o capim espesso que nos passava muito acima. Subiu, e cansou-se, como nós; comeu da mesma conserva; e foi até cuspido da viatura em que seguia, quando esta, num desnível de terreno, se voltou. No fim de tudo, apenas se preocupava com a hora de regresso, porque tinha ainda o breviário para rezar!... Inúmeros são os exemplos que eles dão nesta Angola, para uma verdadeira gesta; sem conta as vezes que, plena refrega, ouviram assobiar por sobre a cabeça as balas assassinas.
Bravos soldados da Paz, nesta guerra insidiosa que o mundo nos levanta traiçoeiramente! Gloriosa, a página que na História inseris! A Pátria vos agradecerá por todo o sempre, e serão fecundos os frutos que espalhais! Sempre vos ficará bem a farda do nosso valoroso Exército, e nas suas fileiras jamais destoará a alvura da vossa batina, onde se pode reflectir, sempre com fulgor, o verde rubro da nossa Bandeira!
O acto piedoso ia terminar. De frente para os seus rapazes, o padre capelão incutia-lhes no espírito um novo alento, através das suas palavras cheias de caridade. Mais um dia de trabalho chegara ao fim, e eles iam recolher à caserna, em busca do merecido descanso, com a alma mais tranquila, de coração entregue a Maria, Mãe de Deus.
A capelinha ficou vazia, mas naqueles montes distantes... ainda ecoavam os doces cantares do mês de Maio...
... Enquanto houver portugueses,
Tu serás o seu amor...
O seu amor!...