segunda-feira, 19 de março de 2012

Para que da Memória se faça História


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Feitos e Factos da “descolonização” da Guiné - 4

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    Na tarde de 25 de Maio de 1974, e ao fim de três horas de voo desde Lisboa, desembarquei em Bissau, no aeroporto de Bissalanca. Tudo era novo para mim, desconhecido. Ia enfrentar a missão mais desconcertada da minha vida. A incógnita era a marca do futuro.
    Contudo, o militar é treinado para fazer face aos perigos da guerra, mesmo das operações subversivas, onde as leis dos tratados internacionais da guerra clássica (Convenção de Genebra) não são respeitadas pelo inimigo. Por isso, provocam também respostas adequadas de quem o enfrenta, em legítima defesa. Tem de haver uma grande capacidade para reagir ao inesperado, a situações inopinadas. Elaboram-se os planos, mas é necessária uma boa dose de adaptação, na execução, aquilo a que se chama “Conduta”. E, neste caso, a conduta ia revestir-se com roupagens da Politica.
    Daqui para a frente, ia haver lugar para uma simbiose entre acções militares e atitudes
    politicas, a todos os níveis, e, por vezes, ia ser difícil distinguir a fronteira entre os dois campos de actuação. A guerra – segundo Clausewitz – não é mais do que a continuação da politica por outros meios; Lenine, havia acrescentado: “A paz também, a paz não é outra coisa que a continuação da luta por outros meios. A paz e a guerra não são senão dois aspectos da mesma luta, permanente e necessária.” (cfr.: “Guerra Revolucionária”, Hermes de Oliveira).
    Por isso, e dentro destes princípios, as forças do nosso “adversário” estavam estruturadas em hierarquias paralelas: os que executavam as operações militares, cingiam-se às orientações estratégicas dos “comissários políticos” – como viríamos a reconhecer, uma vez em funções. Para os militares, a táctica; para os políticos, a estratégia. Hoje, a quase quarenta anos de distância dos cenários que motivam estas “crónicas”, e vivendo as dificuldades que abalam o Ocidente, soam-me proféticos os vaticínios de Mão Tsé-Tung (1953): “Uma vaga de revolução varrerá todo o continente africano, e os imperialistas e os colonialistas serão rapidamente lançados ao mar... Uma vez a Ásia e a África separadas dos países capitalistas da Europa, o continente europeu desmoronar-se-á por completo do ponto de vista económico... A crise europeia será seguida duma quebra económica total e duma catástrofe industrial.” (Ibidem). (Pense daqui o quiser e quem quiser...)
    Ao fim da tarde, já me encontrava instalado no “Clube”, em condições satisfatórias, aguardando, com expectativa, o meu destino. Contactando com “camaradas” já conhecidos, que ali se encontravam em trânsito, ou em serviço na capital, fui-me inteirando da situação: já não havia guerra activa, no interior. Aguardava-se o resultado das conversações em curso entre delegados do PAIGC e de Portugal, iniciadas nesse mesmo dia em Londres. Por isso, à noite, depois de jantar, colávamos o “transístor” ao ouvido, para ouvir os noticiários em Português, das emissões regulares da BBC. Ninguém podia prever o futuro, que ainda se mostrava aleatório.
    Permaneci em Bissau cerca de duas semanas, antes que me proporcionassem transporte para o destino que, entretanto, me saiu na “rifa”. A minha comissão, em rendição individual, programada antes do “golpe de Estado”, acabou por sofrer um desvio de agulha, dado que só se operou um mês depois: o oficial que estava designado ao lugar que acabei por ocupar, ficou por Bissau, num cargo governamental, e eu fui para o mato, ocupar o lugar vago de um evacuado, que o primeiro devia ter preenchido. Interessante, é que fomos os dois no mesmo avião, lado a lado (ironias do destino, que nem sempre se processam em prejuízo... Deus o sabe).
    Aproveitei, então, as curtas “férias” forçadas para conhecer a cidade e observar os costumes do seu povo. Assisti à missa na catedral, bela, altiva, saliente naquela planura citadina. Uma longa avenida ligava o Palácio do Governo até ao estuário/delta do rio Geba. Vários monumentos povoavam os jardins, lembrando os Descobrimentos e a História. Ligeiramente proeminente, vigilante, frente ao porto, ali estava a fortaleza da Amura, que meses mais tarde haveria também de servir-me de habitação.
    Na “Metrópole”, quando se falava em Guiné, era de um modo aterrador... Era a guerra, cruenta e assassina. Não foram essas as minhas primeiras impressões, e observei correrem perfeitamente amistosas as relações entre europeus e africanos. O comércio, com muitas lojas de europeus, era de franco movimento, e os naturais (alguns do Senegal, fronteiriço) vendiam nas ruas com liberdade e alegria. À tarde, as “tascas” (bares) ribeirinhas enchiam-se de pessoal, a saborear as deliciosas ostras, servidas num grande balde de zinco, sobre mesas de madeira. A cerveja era o néctar dos céus, despejado em profusão naquele ambiente quente e agitado. Havia paz e alegria de viver...
    Quem diria que aquela era a Guiné, de tanta luta e morte?!...
    Ali vivia-se, afinal (por enquanto) Portugal!

domingo, 18 de março de 2012

Para que da Memória se faça História


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Feitos e Factos
da “descolonização” da Guiné - 3
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Havia eu sido mobilizado para uma terceira comissão de serviço, desta feita na Guiné, com data marcada para 27 de Abril de 1974. Corria o boato de que a guerrilha, naquela província, estava a intensificar os seus ataques, e preparava uma ofensiva em grande escala (bluff). Por isso, o “clima” vivido era de apreensão pelo que pudesse vir a acontecer em tempo próximo.
Por esta altura, a situação politica, no torrão metropolitano, apresentava alguma instabilidade. O general Spínola tinha feito publicar, em Fevereiro o seu livro “Portugal e o Futuro”, que se esgotou, nas livrarias, em apenas quatro horas após o lançamento. Tudo isto levou a que oficiais generais dos três ramos das Forças Armadas se reunissem em S. Bento, a 14 de Março, para “desagravar” o chefe do Governo e afirmar-lhe a sua confiança e fidelidade. Este evento ficou, na gíria, conhecido como “a brigada do reumático”, e registou a não comparência dos generais Costa Gomes e António de Spínola, chefe e vice-chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas. A sua demissão dos respectivos cargos foi consequente.
Porém, na madrugada de 15 de Março, um grupo de militares do quartel das Caldas da Rainha sai à rua e avança sobre Lisboa. Às portas da capital, a coluna é interceptada por forças afectas ao Governo, e é feita regressar ao ponto de partida. Este movimento ficou sempre na penumbra de um completo esclarecimento, quanto à origem das suas motivações e dos objectivos pretendidos. Passou a ser conhecido como o “Golpe das Caldas”, abortado.
A situação politico-militar, no país, estava, assim, a agravar-se. Havia já algum tempo que se vinha cozinhando o apelidado “movimento dos capitães”, e na noite de 24 para 25 de Abril as tropas saíram à rua. O que se passou a seguir não é o tema desta crónica, e não falta literatura que caracterize o desenrolar dos acontecimentos subsequentes: golpe de Estado, queda do Governo, Junta de Salvação Nacional, Conselho da Revolução, Documento dos Nove, Verão Quente de 75, 25 de Novembro, etc., etc., até à consolidação da Democracia.
Pois bem. Retomando o fio da meada, importa dizer que devia ter eu chegado à Guiné, em rendição individual, a 27 de Abril, mas só pude concretizar a viagem a 25 de Maio – tal era a “bagunça” desorganizativa da máquina administrativa militar, após o “golpe”.
Uma vez em Bissau, permaneci aqui durante cerca de duas semanas, no chamado, então, clube militar (messe), e nos contactos estabelecidos com quem chegava da, ainda, Metrópole, ia tomando conhecimento do que se ia passando acerca do evoluir da situação politica. Não eram satisfatórias as notícias, pois começava a alastrar-se a convicção de que o assalto ao poder ia de vento em popa, e as lutas partidárias aumentavam, com predomínio da militância de esquerda. Recordo uma frase ouvida de um oficial superior que regressava de férias: “- Estamos perdidos. Os comunistas estão instalados em todos os lugares-chave...”
Os acontecimentos fluíam, em Lisboa, em catadupa, e as tropas, na Guiné, começavam a sentir o seu futuro incerto, porque “o chão” lhes fugia debaixo dos pés. Em Lisboa, os cravos da revolução tinham começado a murchar desde a euforia festiva 1º. de Maio, e ninguém podia prever o dia de amanhã. Esta incerteza grassante entre os militares começava a ter efeitos deletérios na disciplina das tropas, que ansiavam rapidamente o regresso a suas casas.
É das leis da guerra que o melhor modo de vencer o inimigo é atacar a sua retaguarda, isolar a sua frente de combate e diminuir a sua vontade de combater, até à rendição. Foi assim na 1ª. Guerra Mundial, em 1917, quando os alemães permitiram que Lenine, num célebre “comboio blindado”, fosse introduzido na Rússia para aqui despoletar a revolução e retirar as suas forças da frente de batalha. Se não podemos aplicar ipsis verbis este exemplo histórico a Portugal, os contornos práticos não deixam de ser significativamente semelhantes... Com o golpe de estado de Abril 74, em Portugal, na retaguarda das forças combatentes em três teatros de guerra subversiva, separados geograficamente por milhares de quilómetros da mãe Pátria e entre si, não havia mais possibilidade de os militares, em África, prosseguirem a sua patriótica missão. Se o tentassem fazer, seria o descalabro, o desastre total, e muitas vidas seriam ingloriamente sacrificadas. Atente-se no caso de Timor, e no que aconteceu ao malogrado Maggiolo Gouveia – o herói esquecido – por amar tanto a sua Pátria, e o povo timorense.

Para que da Memória se faça História


Feitos e Factos
da “descolonização” da Guiné - 2
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Um dos factos mais surpreendentes ocorridos no sector do BCav 8323, já na descolonização consequente do golpe de Estado do “25 de Abril”, foi, pelo insólito da cena, e pela espontaneidade oportuna do principal actor, o da bandeira de Paúnca, no nordeste da Guiné... Poucos terão, então, percebido o que realmente se passou, mas quem bem atendeu ao cenário da cerimónia, não deixou de se interrogar sobre o significado, completo, profundo, daquele acto protocolar.
Dia 21 de Agosto de 1974. 13 horas e trinta minutos. Era a transferência de responsabilidade do quartel de Paúnca, para o PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde).
Depois de uma alocução de circunstância, proferida pelo então Major de Cavalaria Moniz Barreto, 2º. Comandante do BCav, e com todos os presentes (militares portugueses e do PAIGC) em sentido, desceu com toda a solenidade, ao toque de clarins, a bandeira das quinas – a Bandeira Portuguesa, que foi religiosamente recolhida.
Acto contínuo, o ex-furriel Reis Pires, passado já para os quadros do PAIGC da área, subiu ao paiol, para com a mesma solenidade hastear a Bandeira da Guiné Bissau.
De novo iniciam os clarins o toque de continência. Os militares perfilam-se enquanto ascende no mastro a bandeira tricolor, vermelha, verde e amarela, da Guiné. Quando esta já subia a meia haste, rompe-se a adriça, e a bandeira fica solta, até que cai em terra.
A marcha de continência prossegue...
Perplexidade geral!... Mau agoiro?!...
Não acreditamos em prenúncios agoirentos, mas, como soe dizer-se: “há sinais!...”
Confusão apenas momentânea:
O soldado Balasteiro, do pelotão de reconhecimento da CCS/BCav 8323, ali presente no momento, zarpa leste, e de um salto agarra a bandeira caída. Sobe, então, pelo mastro fora, feito macaco, a segurar a adriça nos dentes. Lá no alto, passa o cordão pela pequena roldana, e começa, imóvel, na ponta superior do mastro, a puxá-lo lentamente, fazendo subir a bandeira da nova “dominação”, com a mesma solenidade que antes, enquanto os clarins continuam a fazer soar os seus acordes em marcha de continência.
Os militares portugueses e os do PAIGC quase não haviam alterado a sua postura inicial, perfilados e em respeito.
Finda a cerimónia, procedeu-se à substituição da corda. A nova Bandeira lá ficou, ondulante e segura.
Este, o facto. Singular, inédito, “enorme”!...
Agora, o significado que logo se procurou tirar dali:
A nova Guiné independente, precisaria de estruturas novas, para “subir”... Mas os Portugueses, como Balasteiro, hão de estar sempre prontos a ajudar os seus irmãos desta nova nação africana, sem colonialismos exploradores, mas com fraternal generosidade.
... ... ...
Trinta e sete anos passados, e tendo em conta todo o percurso temporal e politico desta antiga província africana de Portugal, desgraçada por lutas subsequentes de poder, e por vinganças perpetradas em ajuste de contas partidárias e raciais, continuamos a pensar que... infelizmente, o gesto espontâneo, profético, de Balasteiro, não logrou ainda pedagogia bastante, para que os guineenses possam usufruir da felicidade que merecem.

Para que da Memória se faça História

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Feitos e factos da descolonização da Guiné - 1
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É sempre grande e perpétuo o dia que se assinala solenemente como único, e porque único só na lembrança e no coração se projecta no futuro.
4 de Setembro de 1974 foi um dia grande para o BCav 8323. Na parada do BCP 12, em Bissalanca, Guiné (Bissau), cerca de 500 homens se uniram em formatura geral do Batalhão. Não foi apenas “ronco”.
“Ronco” é aquilo que só fica na superficialidade dos acontecimentos. “Ronco” é aparato, condimento... e - quantas vezes! – vaidade.
O BCav formou. Uniram-se os Cavaleiros de Pirada, na esteira de outros que por lá passaram, amassando e amargurando o “pão do diabo”.
Formatura, com certeza, com muitas falhas, colorida, embora, com os lenços pretos, azuis, vermelhos e amarelos, ao pescoço de cada um. Dentro do peito, palpitava em todos no coração a dignidade do Soldado Português, que enfrentou os perigos de uma guerra dura, dilacerante, subversiva de cariz politico, mas que soube outrossim, na hora própria, abraçar os que havia enfrentado como inimigos, construindo e consolidando a Paz, sem ressentimentos ou rancores, porque o verdadeiro soldado não odeia, ama, mesmo na atrocidade das batalhas.
Aqueles 500 homens ouviram o seu Comandante, num eloquente improviso pleno de gratidão e homenagem àqueles que orgulhosamente chefiou. O coronel Jorge Mathias (hoje, de saudosa memória) lembrou os que sofreram, digna e heroicamente, no “inferno” de Copá, e chamou, numa evocação saudosa, os que caíram para sempre, a cimentarem com a carne e o sangue os alicerces da Pátria.
Não esqueceu, também, os ausentes por motivos de evacuação, com menção especial do capitão Ângelo Cruz, ex-comandante da 1ª. Companhia, mutilado em combate.
Dirigiu-se depois às tropas o comandante-chefe das Forças Armadas da Guiné, Brigadeiro graduado Carlos Fabião, que distinguiu o BCav com a sua presença pessoal e amiga, neste acto solene e final da Unidade. Endereçou aos militares palavras de reconhecimento e louvor, pelo seu esforço e pela disciplina sempre patente. Apontou-lhes os caminhos da Paz e da Liberdade que todos – disse – “vão encontrar num Portugal renovado, para o que devem estar preparados, com o mesmo esforço e denodo com que cumpriram a sua missão nas terras da Guiné”.
Após a distribuição de prémios aos graduados e praças que mais se evidenciaram no cumprimento dos seus deveres, numa apreciação global da respectiva conduta, o BCav 8323 desfilou em continência perante aquela primeira Entidade grada da Guiné... que fora solo de Portugal.
Terminara a missão. Valeu a pena?
À frente estava o futuro. O futuro incerto. O futuro que se veio a concretizar em muitas desilusões e tragédias. O futuro que julga a História! Porém, ao Soldado, apenas se exige que cumpra os objectivos da Politica... E é ao Povo que se reserva o direito de julgar a Politica.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Para que da Memória se faça História

Aquela Missa do Galo!...
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Já lá vão quatro dezenas de anos, mas nos arquivos da memória continua viva… aquela “Missa” do Galo!...
Não havia padre, sacerdote, mas leu-se o “Evangelho”.
“Ofertório”, houve, sim: todos ali ofereceram a Cristo, no presépio, com inteira generosidade, a saudade da terra natal; da lareira onde se aquecia o vinho com açúcar, pintalgado de canela, para as rabanadas; das crianças esperando a vinda do Menino Jesus, com as tão desejadas prendinhas; da igreja paroquial, a essa hora vibrante de cânticos de Glória...
Ali se ofereceu, também, a nostalgia pungente dos familiares distantes... lá na parte superior da bola do mundo...
Ali se entregou, a Deus sobre a “patena” do coração de cada um, pobres e humildes que eram estes soldados em campanha, o seu trabalho, as suas lutas, os muitos ou parcos méritos, e, para remissão, as faltas humanas de cada dia...
“Consagração”, também houve: consagraram-se ao Senhor da Vida, nascido em Belém, todos os circunstantes, e Ele, certamente, lá nos Céus, os aceitou em seus braços protectores, e sorriu, como havia sorrido aos pastores e aos Magos, atraídos pela estrela anunciadora da Natividade divina...
E, sobretudo, houve “Comunhão”. Cristo não podia deixá-los partir sem visitar espiritualmente a sua alma. Mesmo sem fórmulas nem espécies sacramentais, Ele desceu até àquele lugar, penetrando o interior de cada um, e, na comunhão com o Salvador do mundo, todos ficaram unidos num só Corpo... Místico!
Aquela “Missa do Galo”!...
A rapaziada tivera um jantar normal, mas, desta feita, o tradicional bacalhau com batatas! Não foi ceia... A hora própria do jantar era às cinco da tarde, para aproveitamento da claridade do dia, que, naquela latitude, cedo finava. Divertiram-se, depois, com comedimento e pensando nos seus, que, àquelas horas, a milhares de quilómetros de distância, no torrão metropolitano, vertiam lágrimas de saudade, como que tentando levar a memória figurativa dos ausentes para a mesa da consoada.
Tudo estava porém a postos. Não havia grandes alardes, dado que os «turras» podiam escolher essa noite para atacar o aquartelamento...
As horas passavam, e estes bravos soldados sentiam o corpo a pedir descanso. Várias vezes os familiares foram trazidos aos lábios de muitos e ao coração de todos. Pouco a pouco foram recolhendo às casernas, não sem primeiro se efectuar um exercício nocturno de defesa, para que o “inimigo” que porventura andasse perto soubesse que estávamos preparados para responder a alguma tentativa de surpresa. Sentinelas vigilantes, em cada posto da periferia! Silêncio e sossego. Mas, à meia noite, o carril que servia de “sino”, pendurado numa árvore à entrada da pequena capela artesanal, vibrou bem sonoro às pancadas do martelo. Os bancos da capelinha, dentro em pouco, ficaram todos ocupados. Os mais atrasados tiveram de permanecer de pé. Entoaram-se cânticos natalícios, a deixar o peito contrito e as entranhas a tremerem, pelo saudosismo acicatado.
Aquela «Missa do Galo... jamais se pode banir da memória, em cada Natal ora vivido.
Naquela pobreza do mato, isolados na rudeza da guerra, envolvidos pela nostalgia da imensa distância que nos separava da terra amada... também se experimentavam, por vezes, alegrias espirituais, desconhecidas a quem se instala no comodismo de uma vida fácil e, quase sempre, estéril, vazia.
Não se pode lutar pela Paz se ela primeiro não existir no peito do que a busca ou defende. A paz brota do coração do homem, como dele também pode emanar o ódio e a vingança que provocam as guerras entre os povos. Era essa a diferença, patente naquela noite, a celebrar a madrugada em que a Humanidade pecadora tinha acolhido nas palhinhas de uma manjedoura o Salvador do Mundo.
No dia seguinte, o “povo” que vivia junto do aquartelamento, gente recuperada do mato, e que fora recolhida para melhor vida e segurança, celebrou também o dia de Natal. Vestiram, todos os residentes, as roupas que havíamos ofertado, enviadas da Metrópole; receberam a refeição e cerveja; visitaram o presépio, e atenderam às explicações prestadas sobre cada pormenor e o significado das figuras.
Jesus, aquele Menino, que era homem e Deus, também tinha vindo ao mundo para eles... Sobretudo para eles, os mais humildes e desprotegidos da vida.
E assim se fez Natal, naquela terra de Cangombe, margem esquerda do Capoche, 50 km a norte de Cabora Bassa, distrito de Tete, quando Moçambique ainda era... terra de Portugal.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Para que da Memória se faça História

A Cruz, ...da Memória
Tínhamos chegado há pouco tempo a Tomboco, onde ficara a sede do Batalhão. Ocupávamos instalações remanescentes de uma missão católica, de que restavam ainda dois missionários espiritanos: um holandês e outro alsaciano. Habitavam a cerca de duzentos metros, do nosso aquartelamento, e ali havia uma capela onde podíamos assistir à missa dominical. Estabelecemos bom relacionamento com eles.
A área em redor era amena e exuberante. Não havia, naquela altura, ameaça de guerrilha activa. Mesmo assim, efectuávamos patrulhamentos de rotina, e desenvolvíamos, nas sanzalas próximas, actividades de apoio às populações, dentre as quais a catequese e a instrução escolar.
Recordo que o General Venâncio Deslandes, pouco antes Governador de Angola, e recentemente demitido, havia promovido uma “revolução” no Ensino, em todas as vertentes, desde o primário à criação da Universidade de Luanda. Tal contrariou o Governo central de Portugal e originou a “queda” do Governador, que também assumia as funções de comandante-chefe das Forças Armadas, no território.
Ora, tendo eu pedido ao missionário que me fornecesse material de apoio para o ensino das crianças, na escola, foi ele buscar alguns manuais que achava muito a propósito, dentre eles a “Cartilha Maternal”, de João de Deus, mas recomendou sigilo, pois os métodos do “Deslandes” já não estavam em vigor... De facto, quando Venâncio Deslandes deu em Angola o “pontapé de saída” para uma “revolução” pacífica na Província, parecia ter começado uma nova era... Não logrou êxito, porém. A Politica é uma coisa complicada... O que parece, pode não ser. E ficámos, nessa altura, com a manutenção do “statu quo”, sem saber o que viria a dar o empenho e desassombro do general governador. O poder entendeu... que ele tinha ido longe de mais, à revelia de quem mandava! Mas voltemos ao fio da meada.
De Tomboco, avistava-se, a uma distância de seis a sete quilómetros, em linha recta, para oeste, uma pequena elevação, de cume escalvado. E o nosso comandante de batalhão idealizou que ali, como marco de referência e símbolo da nossa identidade cristã, ficaria bem uma “cruz”, que se visse ao longe. Em consequência, e para concretizar a ideia, era mister fazer um reconhecimento do local, e avaliar as possibilidades de lançar mãos à obra.
Organizou-se, então, uma pequena expedição... Um jeep, um unimog 411 (um “pincha”) e uma secção de sapadores. Lá fomos, guiados pela carta e pela bússola, picada fora e a “corta capim”, à procura do morro preferido.
Atingimos o ponto de destino, e tentámos vislumbrar, ao longe, o aquartelamento. Desilusão! Àquela distancia, e por comparação com o que divisávamos dali, uma “cruz”, assim tão longe, e para o efeito pretendido, tinha de ser muito grande... (hoje podemos avaliar o problema, observando esses “viraventos” das “Eólicas” que nos rodeiam por aí).
Cumprida a missão, havia que empreender o regresso... Jeep à frente, pincha atrás, toca a andar, que a tarde cai. Mas nestas andanças há sempre imprevistos: o unimog, na dianteira, cortava o capim, abrindo trilho para o jeep, que o seguia. O capim era alto e denso ( - Que riqueza se isto fosse trigo!... – alguém comentava). Às tantas, o pincha começou a levantar-se à direita, ficou em diagonal, e tombou para a esquerda, num abrir e fechar de olhos. O pessoal foi projectado ao solo, atónito com o acontecido, mas ninguém se molestou. A viatura ficou tombada de lado. A roda dianteira direita tinha apanhado um monte da formiga “Salalé” (Térmitas), e a “gincana” não resultou. O tombar do unimog foi o resultado imediato e consequente.
Os “sapadores” estão “programados” para solucionar o que parece não ter solução. Improvisar, é a lei. Assim, todos à uma, depressa colocaram de novo o carro sobre rodas. Não houve grandes perdas...; simplesmente, a água do radiador tinha-se sumido. E os cantis estavam vazios... A viatura não podia continuar viagem... com o motor “sequioso”. Que fazer?
Dentro de momentos, todos os elementos da patrulha começaram a “verter águas” para o bocal do radiador... Era um recurso dos manuais da “Sobrevivência”. E desse modo apetrechámos o unimog para continuar a viagem, que se finalizou sem mais incidentes. Claro que, depois, o radiador haveria de ser devidamente lavado, na oficina...
Quanto à “cruz”... O comandante haveria de cumprir, mais tarde, o seu anseio. Foi erguida em Bessa Monteiro, no morro onde, em novo poiso, ficara o comando do batalhão. Branca, altiva, em memória dos que haviam caído pela Pátria, e para que lá, mais a oriente, os guerrilheiros do “Pedro Afamado”, na mata Sanga, a pudessem divisar, e saber que quem ali estava... estava por Bem, e não desejava a guerra, mas a Paz!

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Que é o homem?!...

Queres saber o que vale o homem, visto em si próprio?
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Sobe ao alto de uma montanha. Olha a cidade dos homens, a teus pés. Não consegues vislumbrá-lo! Não é de certa distância que se apreciam as obras de arte?...
O homem julga-se poderoso, rei e senhor. Em si próprio, nada é; olhado à distância, progressivamente desaparece.
Há tempos, num retiro espiritual, num santuário situado no alto da montanha, fui posto a contemplar a realidade do homem: seu princípio e seu fim, seu valor como criatura de Deus, como filho do Pai celeste, irmão de Cristo e feito ele próprio outro Cristo, pelo amor de Deus para com os homens.
Encontrei aí o homem verdadeiramente livre, sacerdote, em Cristo e por Ele; ainda, rei e profeta.
Encontrei-o aí “feito Deus”, na medida em que, libertando-se do seu egoísmo, do seu individualismo, se une a Cristo e com Ele se identifica numa plena entrega de amor recíproco, levando com Ele e por Ele ao Pai a oferenda da sua vida neste mundo; toda a sua vida, e através dela o Universo inteiro - que recebeu para dominar, e conduzir, em retorno, à glória de Deus.
Mas o homem egocêntrico, egoísta, orgulhoso de um poder que lhe não pertence, vaidoso da sua inteligência... Esse, tentei perscrutá-lo lá de cima, nas entranhas da sua cidade. Ele existia nela aos milhares; vagueava pelas ruas e pelas praças, mas não o pude enxergar, tão pequenino que era. Em contrapartida, que vista maravilhosa, que beleza, em todo o horizonte circundante, nos apresentava a obra da Criação!...
Experimenta! Sobe ao alto de uma montanha. A teus olhos estupefactos, maravilhados, vai crescendo a obra do Senhor, vai-se abrindo ao teu conhecimento a Sua sabedoria infinita, e vai desaparecendo da tua vista o homem, na sua pequenez progressiva, até se tornar irreconhecível! Já Saint-Exupéry o tinha notado, nas suas maravilhosas considerações literárias sobre o Homem.
Leste ou ouviste o que os astronautas, nos seus voos espaciais, deixam escapar de assombro pelas maravilhas que lá do espaço, extasiados, admiram? Mas ao homem, nem por sombras se referem.
Contudo, é este homem que ambiciona dominar os outros homens, que faz as guerras, que mata e que atraiçoa – qual vírus de terrível doença que ataca e tenta destruir a humanidade.
O homem, feito à imagem e semelhança de Deus, e para Ele criado, recebeu d’Ele um mandato. Mas não é escravo, é livre! – é verdadeiramente filho de Deus Criador. Ele vive a sua existência no amor de Deus. A sua vida, produto do Amor, tem de produzir amor – no sentido horizontal, para com os seus irmãos e no domínio das coisas criadas; no sentido vertical, para Cristo, onde tudo se reúne: o Universo físico, vital e espiritual, e a Divindade eterna.
Quão grande é o homem assim encarado, visto na sua autêntica dimensão mística e universal; quão grande é o homem que consciente do seu valor e da sua qualidade de filho adoptivo de Deus, orienta a sua vida para esse “Sol” que lhe deu o ser e que continuamente o ilumina; quão grande é a sua liberdade, sem quaisquer pressões ou peias a forçar ou a impedir o seu caminho!... Unido aos seus irmãos e a Cristo ressuscitado, está de passagem (Páscoa) nesta vida, e dela parte para o Eterno, onde o espera o “Alfa e o Ómega” de toda a Natureza criada.
Mas que infinitamente pequeno é aquela aberração de homem que julgando-se por si próprio deus e fazendo-se centro de todas as coisas, se aniquila e arrasta os outros ao mesmo caos!... Quantos homens na História se proclamaram “deuses” e senhores... e mais não se tornaram, no fim da vida, do que pó da terra, deixando no mundo um rasto de destruição e morte! Podem ter o seu nome escrito nos anais da História, mas é pela negativa que são lembrados.
Que homem queres ser tu, meu amigo?
O que sobe às alturas celestes e ilumina o mundo com o exemplo da sua vida, ou o que se reduz ao nada, na raiva da impotência e da ignomínia?
O que ajuda este mundo a transformar-se na virtude e no bem para glória do Criador, ou o que fechado no seu próprio interesse apenas se serve do mundo, e o leva à destruição?
O que se une por amor aos seus irmãos e com eles edifica a família e a comunidade em que vive, ou o que, impregnado de virulento ódio e de mesquinho egoísmo, explora os outros homens, despreza as suas enfermidades e carências, escraviza-os na injustiça, e os repele para a morte?
Operário ou patrão, professor ou aluno, pai ou filho, marido ou esposa, clérigo ou leigo, rico ou pobre, chefe ou subordinado... A tua vida é sagrada e a tua missão insubstituível. Faz delas o teu sacerdócio permanente, na humildade e no respeito pelos outros; na caridade e na justiça; na verdade e na liberdade. Formamos todos um só Corpo, Místico, de que Jesus Cristo é a cabeça e nós os membros. Toda a nossa vida é culto a Deus, nada – nem um só cabelo da nossa cabeça – é perdido. Não estejas só à espera da hora litúrgica, cerimonial, para O louvares no templo. Esse é um momento particular, mas tu mesmo és templo, porque Deus habita em ti, ainda que o pressintas distante. Deus chama-te hipócrita, como pelo Seu Verbo incarnado fustigou os fariseus, se fores orar para o templo e te negares ao culto permanente da tua vida. Atraiçoas a tua missão sacerdotal, comum a todos os que se dizem cristãos, se não fizeres da tua vida um cântico de louvor ao Deus que te criou!
Ouve-me, de homem para homem. Estamos a sós. Não deixes que as más inclinações invadam e dominem a tua alma, forcem ou impeçam as tuas decisões. És adulto, e és livre! Não te acorrentes às paixões! Não permitas que o egoísmo, o ódio, o despeito, a angústia te torturem.
Deito-te as mãos aos ombros e abano-te... Acorda! Acorda para a realidade que tu és, e olha para o que poderás vir a ser, para o que deves ser, para o que te realiza como pessoa, e, unicamente, te poderá fazer feliz. Encontra-te a ti mesmo, sempre à frente de ti próprio... A meta da perfeição situa-se sempre mais alto e mais além, e perde-se nos horizontes eternos.
Não te importes com o que dizem os outros... Perdoa-lhes, se te molestam; não faças caso, se te louvam. Só Deus conhece e aprecia o teu interior mais profundo. Melhor do que tu, e sempre antes de ti.
Quem está unido a Cristo, deve estar sempre disposto ao sacrifício. Ele foi coroado rei, mas puseram-lhe na cabeça uma coroa de espinhos. Não há amor sem doação; não há renovação sem a rejeição do que não presta. O vinho novo, vivificante, requer odres novos – diz o Senhor.
Dá-me a tua mão. Vamos tentar os dois. Passo a passo, caminhada em caminhada, de escolho em escolho... Se cairmos, levantar-nos-emos, com ajuda mútua. Que importa que sangrem os pés? Venceremos, e haveremos de levar outros pela mão.
(V.S. - Sameiro - Braga - 1972)
O homem, só se realiza como tal, peregrinando,
em busca do Ressuscitado;
o Ressuscitado, é Aquele que foi crucificado.