terça-feira, 13 de abril de 2010

Para que da Memória se faça História

Apontamentos de um soldado em África - 20
A Árvore das Patacas
Quando eu era criança, ouvia falar na “árvore das patacas”, existente, naquela altura, lá para os lados do Brasil... E estava eu convencido de que, na realidade, havia a tão desejada árvore, e que, português que ao Brasil fosse, e abanasse a ramagem da dita, regressava rico.
Os tempos passaram. Fui perdendo aquela santa e inocente crença na famigerada planta e, até com decepção e tristeza, cheguei à conclusão de que o “fruto patacal” era colhido, não de uma frondosa e verdejante árvore exótica, mas de alguns expedientes e trafulhices…, embora para muitos, felizmente, a árvore não fosse senão o seu honesto e intenso trabalho, de tronco rodeado pelos espinhos do sacrifício.
Parece que hoje, porém, tal crença ou ilusão voltou a tomar muitas almas, e já não somente o Brasil possuirá o madeiro que tão precioso fruto dá – se é mesmo que não o perdeu - mas noutros pontos do mundo ele se levanta para muita gente, e pena é que o nosso Ultramar esteja neles incluído. Para aqui, correm muitos em ávida procura da sombra acolhedora dessa árvore que nos pode tirar da miséria, e sem mais nada considerar do que o seu dito fruto.
Tal situação levanta enormes problemas sociais, que não são estranhos, não só ao indivíduo em si mesmo, mas também à Família, à Igreja, e à Economia da Nação - que se vê desfalcada no potencial humano de que tanto necessita na hora que passa. E o problema é tanto mais grave, quanto é certo que o País tem de empregar actualmente grande parte da sua juventude - que é o vigor da Nação - na defesa do solo pátrio, o que traz, já por si, inúmeras consequências humanas, sociais e económicas.
Não seria, então, de desejar que a corrente humana que se escoa para o estrangeiro, da qual, repito, muitos dos seus elementos vão simplesmente em procura da “árvore das patacas”, se encaminhasse para as Províncias Ultramarinas, onde agora mais do que nunca precisamos de marcar fortemente a nossa presença?!... Sim! Mas, importa não cair no erro a que uma visão simplista do problema nos leva. É que não basta vender a mobília, e mesmo a casita ou as terras que, se bem que modestamente, sempre iam servindo de ganha-pão quotidiano, comprar as passagens e arribar a qualquer cidade do nosso Ultramar. E há tantos que o fazem deste modo!...
Efectivamente, é preciso vir com certeza, e não à sorte. Torna-se necessário que a nossa gente da Metrópole, por meio de idóneas entidades particulares, ou através de organismos oficiais e da especialidade, encontre nas Províncias Ultramarinas as condições propícias à sua à sua fixação, de modo a garantirem uma vida desafogada e útil, que seja melhor que a usufruída anteriormente. E não só ao Governo compete tomar as medidas tendentes ao desenvolvimento das Províncias, para que estas possam receber os eventuais excedentes populacionais da Metrópole, mas também às entidades particulares se pede o investimento adequado no mesmo sentido. A Nação precisa dos esforços de todos... Não imputemos unicamente ao Estado as responsabilidades. Ao esforço da juventude que no campo militar dá o que pode dar, mesmo a mais humilde..., aquilo que tem de mais precioso - a sua própria vida -, não se possa opor a traição daqueles que, no campo económico, procuram a retirada, como precaução e defesa mesquinha dos seus interesses particulares.
Vir para o Ultramar, pensando apenas em abanar a “árvore das patacas”, é acção digna de reprovação, e perigosamente arriscada. Mas há quem o faça, e não são poucos! Talvez movidas por ilusões fabricadas por uma propaganda fácil e atraente...; talvez empurradas por ambições que surgem em seu íntimo, ao tomarem conhecimento de êxitos rápidos alcançados por alguns, o certo é que chegam a Angola pessoas que só pensam no que vêm fazer quando põem pé em terra. Até aí, tudo era sonho de doce ilusão - vir para África -, mas a verdade é que, após o desembarque, não sabem, tantas, para que lado se hão-de virar. E, como os tostões são poucos, e a pensão, num trago, os comerá, não têm outro remédio senão começarem a pensar no regresso à terra mãe, depois de alguns dias a procurar emprego, sem resultado. E, consequentemente, são estas mesmas pessoas que vão dizer que isto está mau, quando afinal não saíram de Luanda, e, devido à sua situação desesperada, retomaram o barco de regresso, quase em pânico, e endividadas.
Contra esta situação, levantou há tempos a sua voz o órgão da Arquidiocese de Luanda, “0 APOSTOLADO”, e a mesma mereceu já a atenção das entidades oficiais. Mas, apesar disto, ela continua a verificar-se.
Ainda há dias, tive ocasião de ver em Luanda um pobre homem que pedia a um soldado seu conterrâneo uma ajuda monetária para regressar à Metrópole. Era um recém-chegado.... e já andava aflito para partir. E mais dois, ao que parece, lhe faziam companhia no infortúnio. Olhei para eles... Um trazia um ananás na mão, talvez para se convencer de que estava em África... E senti pena!... - e eu tinha razão (por motivos particulares e pessoais) para sentir pena!... Não! A “árvore das patacas” não existe, afinal! Não é chegar... dar uma abanadela, e voltar. Quem vier a pensar desse modo, esse é que ficará dentro em pouco abanado... e sem pataca no bolso.
Angola, ou outra qualquer Província, precisa de gente, mas não pede a ninguém que venha à aventura, e muito menos acreditando na ilusória “árvore das patacas”, porque ela não existe em lado nenhum do mundo. Nada se faz sem trabalho, e este por vezes é penoso, embora todo o trabalho tenha o seu prémio. Alguns dos que chegam arranjariam serviço no interior, mas esta ideia aterra-os: “o mato... é a guerra”!
Como seria bom que os barcos viessem cheios de portugueses dispostos a engrandecer a Província, e com ela a Pátria, pensando mais no que poderiam trazer a esta terra de missão, do que naquilo que dela haveriam de tirar; dispostos a trabalhar em qualquer parte, e não apenas em Luanda, com medo exagerado do “mato”, que, para os que chegam de novo, lhes aparece como prenúncio de morte. E nesta Angola... - onde uma vara que se espeta na horta a servir de estaca, sem que se queira floresce e ramifica, e se torna árvore frondosa!...
… Mas nunca – nunca! – “Árvore das Patacas”!
Angola - novembro de 1964

segunda-feira, 8 de março de 2010

Para que da Memória se faça História

Apontamentos de um soldado em África - 19
A Sanzala
A sanzala é o habitat característico da gente africana que vive no mato. É constituída por um grupo de cubatas, habitações pequenas com um ou dois compartimentos apenas. Há cubatas feitas só de capim seco, cuidadosamente disposto e atado sobre uma armação de paus finos; outras, de barro amassado atirado à mão sobre paredes de pequenas pedras seguras por varas entrelaçadas; algumas, de adobes, numa construção mais adiantada, que são blocos secos feitos de barro misturado com capim. Vêem-se sanzalas com tectos de telha, mas, na maior parte, as cubatas são cobertas de capim e folhas de palmeira, numa disposição adequada, e não há água que por aí penetre.
O chefe da sanzala é o soba, eleito pelo povo e com autoridade sobre todos. Para questões delicadas, há um conselho de anciãos, que funciona como um tribunal... E eles zangam-se, se a autoridade administrativa é preferida à sua douta opinião. Sobre os sobas das várias sanzalas de um aglomerado importante, existe ainda um regedor, indivíduo de grande consideração entre o seu povo.
Em cada sanzala existe, geralmente, um edifício mais espaçoso, construído de adobos, destinado a capela-escola, onde o missionário reza missa e ensina, ajudado pelos catequistas, nativos escolhidos e preparados para esse mister.
Antigamente, o preto vivia em núcleos dispersos situados segundo as condições naturais que melhor serviam as suas necessidades primárias. E, além destas, pouco mais ele tinha para lhe dar preocupação. Por influência da autoridade administrativa, os nativos passaram a habitar ao longo das estradas, em sanzalas mais ou menos ordenadamente construídas, deixando, embora com relutância, e nem sempre definitivamente, as aldeias do interior. A sua capacidade de adaptação e de construção, graças aos processos simples empregados e à facilidade de obtenção de materiais, que buscam no meio que os rodeia, ajudou-os a formar, aldeamentos mais vastos e bem localizados, que emolduram as estradas de Angola.
Alguns povos não deixaram de vez a mata, aí arraigados pelo seu primitivismo ancestral, naturalmente renitente às exigências das ordens administrativas, ou presos a ela pelas vantagens várias, como as condiç6es de solo e água para as suas lavras (hortas). Aquando da confusão, muita gente fugiu para essas aldeias antigas, instigada pelos elementos subversivos, deixando o triste espectáculo das sanzalas abandonadas, que se pode admirar ao longo das vias de comunicação do norte de Angola. Nestes três anos últimos, muitos povos voltaram, recuperados, aos seus aldeamentos, a fim de, refeitos ou arrependidos, iniciarem um nova vida, e com este objectivo se tomam medidas destacáveis, particularmente na zona de Carmona. Recordo com saudade a minha chegada a estas maravilhosas paragens africanas (vai fazer já quase dois anos, e parece que foi ontem; ao mesmo tempo, parece também que foi nos primeiros dias da minha vida…, tal é a marca que esta minha passagem pelo Ultramar deixa na minha alma, que tanto quer amar as coisas simples, mas plenas de sentido e de beleza):
Com um punhado de rapazes, íamos à lenha para o rancho geral... A tarde, soalheira e quente, convidava a andar no exterior, apesar do medo de qualquer façanha terrorista inesperadamente surgida de qualquer canto, do capim ou de uma rocha mais agressiva. Havia poucos dias que a África nos tinha no seu seio. Não admirava, pois, o medo que nos invadia a todo o minuto e em todo o lado. Angola, e, nesta, a região que nos calhava, era ainda para nós um autêntico Adamastor, cheio de terror e de incógnitas.
O machado, a golpes certeiros, manobrado por mãos firmes de um bravo soldado do Alto Douro, ia deitando aos poucos por terra uma árvore seca à beira da picada. Ao longe, divisavam-se alguns tectos de cubatas... A curiosidade e o espírito de patrulha puseram-nos a caminhar até lá. Passos lentos e seguros... mãos crispadas na espingarda - que em nós incutia uma sensação forte de defesa...-, espaçados e mudos..., de olhos fitos em redor e meios cobertos pelo capim, fomos avançando.
À nossa frente, ficou, dentro em pouco, uma sanzala abandonada, com cubatas alinhadas de um e de outro lado da estrada, algumas em ruína, outras semi-destruídas e queimadas pelo fogo posto. Era a sanzala “Santa”, uma de tantas que se podiam encontrar ao longo dos caminhos, marcadas com as insígnias da fúria do terrorismo. Mas era bela... poética... Acolhedor o seu conjunto ambiental. Frutos pendiam rosados das mangueiras frondosas... Flores silvestres enfeitavam o terreiro onde as cubatas se erguiam… Palmeiras dendém a chamar as galinhas do mato para o fruto caído no chão e ressequido...
A tarde finava. O sol aproximava-se bastante da linha do horizonte, oferecendo matizes alaranjados ao céu azul que nos cobria. A sua luz dourada beijava também pela última vez no dia aquele capim pardacento das cubatas envelhecidas pelo abandono, e o chão, duro como cimento, de batida terra amarelada. Um tiro de reconhecimento por nós disparado cortou o silêncio daquele ambiente paradisíaco, mas depressa ele se fechou novamente atrás da trajectória daquela bala sem resposta. O medo desvanecera-se já... Antes, uma atracção enorme me infundia o desejo de ali ficar. Paz, sossego, beleza... Porque estava aquele lugar sem ninguém?... Porque tinha o povo fugido?... Que mais ele queria além do... tudo?...
Eram as perguntas que me bailavam no cérebro, ainda pouco a par das manobras insidiosas do inimigo. E a resposta viria, nestes dois anos... Clara, por vezes dura, contundente.
Angola – Outubro, 1964

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Para que da Memória se faça História

Apontamentos de um soldado em África - 18
Às mães dos soldados
Quando aquele barco que nos trouxe deixou Lisboa, muitos lenços brancos acenaram num comovido e cruelmente doloroso adeus. Ali estavam, certamente, irmãos daqueles rapazes que partiam; ali, esposas e noivas; ali, mães, com o coração sangrando pela separação dos filhos queridos, cujo destino permanecia ainda sob o véu impenetrável do futuro incógnito e incerto. Elas viam partir para muito além do que a vista alcançava a carne da sua carne, aqueles para quem o seu carinho nunca tivera limites, o seu tesouro, a alegria da sua própria vida.
Todos sofreram ao ver partir os seus, mas, as mães, essas, irreconhecíveis na mole humana que gritava e agitadamente se despedia, não sofriam somente. Partiam com seus filhos, numa comunhão de amor e dor que jamais podia fenecer. Elas choravam, mas davam generosamente os seus filhos. Davam, porque só elas podiam compreender o grito lancinante dessa outra mãe - a Pátria. Sim, só tu, ó Mãe Portuguesa, compreendes a emergência da hora que passa, tão perigosa e tão rude, tão decisiva e tão pesada. Só o teu coração pode sentir a chaga que tão insidiosamente abriram ao teu Portugal, porque só a tua maternidade pode ser posta em paralelo com o valor de uma Pátria!
Outros navios partiram desde então, como antes também tinha já acontecido. Outros lenços brancos volitaram nos ares, outras lágrimas rolaram nas faces ternas de outras mães. E algumas dessas lágrimas... jamais deixarão de cair. A dádiva foi total!
Tenho à minha frente uma carta mal escrita de uma pobre mãe que perdeu seu filho nesta luta. Nas suas palavras, ditadas a um outro filho pequeno, transparece a dor, mas de modo nenhum se nota nelas desespero. Morreu o seu querido, como lhe chama a pobre mãe. Em casa, era um céu aberto com ele; mas, um dia, ele partiu para sempre ... Oh! Virgem Santa! Também o teu Filho amado te deixou, um dia, para nunca mais voltar... a não ser no fim dos tempos, para julgar os homens. Os pecados da humanidade pesaram-lhe em terrível fardo, e por eles foi pregado numa cruz, condenado à morte. Que mudou o mundo em dois mil anos, ó Mãe? Os crimes do homem continuam a abrir com o seu punhal odiento o peito das nossas mães, como, naquele tempo, as sete espadas de dor atravessaram o teu Coração Imaculado!...
Oh!, meu Deus! Cada vez a imoralidade parece grassar mais sobre a terra! Eis que a rádio e os jornais nos trazem horrendas notícias. Já não respeitam sequer as crianças inocentes... Vês, Senhor, essa pobre juventude abandonada ao sabor da corrente mundana?... A família deixou de ser um templo, para ser um foco de vícios! Mas, aplacai-Vos, ó Deus omnipotente e misericordioso. Se troa forte o canhão da guerra, mais forte ainda é o clamor que se eleva até Vós e que brota do coração das mães Portuguesas. Elas deram seus filhos, aquilo que para elas era tudo; aqueles por quem tanto sofreram para que viessem ao mundo. Elas continuam a ser hoje, Senhor, aquelas mulheres que Vos acompanharam no Calvário, contra a indiferença dos que se esquecem de Vós.
Quanto não deve a Pátria às mães de Portugal!... Todos falam desta guerra. Todos são juizes e se arrogam o direito de julgar, quase sempre negativamente, a conjuntura que nos cerca. Todos pensam trazer em seu bolso a solução para os graves problemas que nos afligem. Mas, só a mãe Portuguesa, que sente a guerra na sua própria carne; só a mãe Portuguesa, que é bem a encarnação da Pátria; só a mãe portuguesa, que seus filhos dá em sacrifício, permanece na verdadeira consciência desta guerra. E ela não desespera, não blasfema, não se revolta. A sua dor é enorme, mas é maior a sua nobreza. A perda dos filhos que morrem é incomensurável, mas a sua alma não sente o vazio e o remorso dos que fogem espicaçados pela traição ou simplesmente por cobardia. .
Continua a mãe, na sua carta humilde, que já atrás referi:
«O meu querido filho nunca poderá ser esquecido. Tenho desgosto de estar tão longe e de não poder visitar a sua campa. Gostei muito de saber que houve homenagem e missa por alma de todos os que têm a infelicidade de aí ficarem caídos pela Pátria».
Oh!, Mãe humilde, mas de coração tão rico! Não!... O teu filho nunca ficará esquecido, porque a Pátria, como tu, sempre o terá presente no seu peito!
Honra, glória e gratidão, a vós todas, ó mães dos soldados de Portugal, que, como naquele ano de 1918, em que tanto sofrestes pelos flagelos da guerra, sustentais as colunas da Pátria com o clamor das vossas orações, e dais alento a nós, vossos filhos, para defendermos o solo sagrado da Pátria lusitana. Deixai falar os ímpios e os traidores. A sua voz é vento que passa, mas esse clamor que se expande das vossas almas é força e vida, e chegará solícito e agradável aos céus. Há-de ecoar para todo a sempre, na História, e na Eternidade de Deus.
Angola Setembro - 1964

Para que da Memória se faça História

Apontamentos de um soldado em África - 17
O Sol desponta novamente
O Povo sabe que a guerra ainda dura em Angola... como em toda a parte... em todo o mundo! Sim. É uma guerra total, ideológica, de civilizações. Total, embora se pretenda situá-la em alguns pontos geográficos exclusivos; ideológica, ainda que as armas nela vomitem metralha; de civilizações, mesmo individualizada em povos ou nações. É uma guerra de sobrevivência: a civilização cristã resistindo às arremetidas dos materialistas utópicos - do anti-Cristo - que pretendem fundar uma paz longínqua (a “paz dos mil anos”) sobre alicerces de sangue.
Foi esta guerra que sobre nós se abateu em 1961, como sobre outras nações, antes ou depois, em obediência a planos revolucionários desde há muito concebidos para dominação do Mundo. Passámos momentos difíceis, mas depois da noite escura e sangrenta daquele Março e dos tempos mais ou menos cruéis que se seguiram, começa a despontar o sol novamente... O sol radiante da paz e do amor, do progresso e da ordem, da salvação social e da reconquista espiritual, não obstante alguns bandoleiros ainda permanecerem acoitados em alguns pontos de difícil acesso, prontos a desferirem os seus golpes fatais, quais feras mortalmente atingidas lançando o ataque do desespero final.
Poderão dizer que o terrorismo ainda não foi completamente exterminado, e que bandos de facínoras se treinam no exterior para prorrogarem a luta. Mas, este sol que desponta aquecerá todos os corações, e o banditismo morrerá à míngua de apoio por parte das populações. Estas, experimentadas por uma terrível e dura prova, não mais alimentarão outro desejo que não seja o de continuarem a ser portuguesas e de mais engrandecerem a sua terra de Angola - Portugal.
A guerra continua... Mas à guerra das armas segue-se uma guerra de acção social e espiritual.
Há tempos, encontrei um capelão militar que fundou nesta Província uma Missão de Leigos: o célebre jesuíta Rev. Pe. Manuel Pires da Silva. Contou-me ele que, em determinada região, onde, antes, os nativos fugiam aos missionários religiosos, os leigos começaram a penetrar e habilmente cativaram as simpatias daquela gente atemorizada, através de ensinamentos diversos e interessantes. Daí à catequese, não foi muito, e assim se abriu para aquele povo desconfiado o caminho da luz cristã. Em muitos outros pontos, embora não com tão esmerada organização, se está a exercer também acção meritória através de elementos militares, chegando a haver casos de ensino técnico profissional.
O Dr. Pinheiro da Silva, Secretário Provincial para a Educação, tem desenvolvido notável trabalho no campo escolar, destacando-se, em particular, a obra das cantinas, inovação que muito veio trazer de bem à juventude angolana. É com grande consolação que se verifica o maior êxito nas suas visitas por terras onde o terrorismo dominou, e que agora são iluminadas por este sol novo do ressurgimento angolano. Os Estudos Gerais Universitários são uma prova convincente desse renascer das cinzas. Não foi em vão que esse português teimoso sulcou as águas, deixando para trás tudo o que tinha de seu e de mais amado, e de armas na mão aqui velo lutar... e morrer. Não foi em vão, e não o será persistir ainda nessa luta que nos travam, e onde quer que ela rebente. Os braços que seguram as espingardas também saberão sustentar a Cruz, e hão-de levantá-la sempre bem alto, como o fizeram os portugueses teimosos de antanho. E as vidas em holocausto dos que caem pela Pátria, aos golpes traiçoeiros do inimigo, são bem o grito da generosidade do Povo Lusitano.
A Nação, ferida, saberá levantar-se e retomar com mais vigor a sua vocação histórica. Um povo que é experimentado pelo sangue derramado na luta, ganha uma nova vitalidade. A guerra que sobre nós caiu ainda dura! Na Guiné e em Angola, o inimigo ainda espreita e ataca. Mas um ar fresco de manhã primaveril se faz sentir depois de uma noite escura e tremenda. O sol da caridade de Cristo desponta novamente, e rasga as trevas do ódio, que perverte as almas.
Angola – Agosto de 1964

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Para que da Memória se faça História

Apontamentos de um soldado em África - 16
O Óbito
Tinha acendido as velas do altar-mor, quando à porta da pequena e pobre igreja ouvi um reboliço acompanhado do correr de fechos. Preparava-me para receber a sagrada comunhão, e o sacerdote já se encaminhava da sacristia para o altar, a fim de satisfazer o meu pedido. A missa era de réquiem, e apenas seria rezada dali a meia hora. Havia falecido no hospital da vila uma pobre mulher nativa, a quem o enfermeiro, cristão, baptizara poucas horas antes da morte a que a tinha levado uma doença não cuidada a tempo. Por isso, eu pedira ao padre que me ministrasse, antes, a comunhão, pois me causava atraso esperar pela missa de corpo presente dessa pobre mulher, a quem Deus se tinha aberto nos derradeiros momentos da vida.
Mas, ao olhar para trás, a saber, num gesto espontâneo e mecânico, o motivo do barulho, vi com espanto que um grupo de pretos, homens e mulheres, carregavam uma urna para dentro da igreja. Traziam consigo duas cadeiras, para nelas apoiarem o caixão, ao mudarem de mãos, pelo caminho. Dirigi-me ao pároco e contei-lhe rapidamente o acontecido; e, um e outro, não pudemos conter o riso, tão inesperado era o que se estava a passar. Eram oito horas e meia da manhã. O funeral estava marcado para as nove. Mas, talvez pensando poupar trabalho ao ministro de Deus, talvez impacientes com a lenta aproximação da hora, ou talvez ainda para adiantar tempo, não esperaram que o sacerdote fosse levantar o corpo, e vá de levá-lo quanto antes para a igreja. No fundo, essa pobre gente procedera tal quanto a sua ignorância religiosa o permitira, tanto mais que alguns dos elementos do grupo deviam ser pagãos, como pagã fora quase até ao fim da vida a defunta ali presente. Refeito do incidente, o sacerdote (capelão militar acumulando as funções de pároco) resolveu então, para minimizar os males, celebrar a missa e, terminada esta, acompanhar o préstito ao cemitério. Mas não findara por aí o dia...
À tarde, nova turma de gente se apresentou à porta da igreja. Era outro funeral. Mas, desta vez, tratava-se de uma criança que não era baptizada, e, portanto, não podia ter cerimónias religiosas. E o grupo dirigiu-se, então, para o cemitério municipal, do mesmo modo como até ali viera. Já na minha crónica anterior fiz referência ao problema pastoral, missionário, desta terra. Os casos atrás narrados elucidam em certa medida a sua gravidade. Os nativos estão habituados a enterrarem os seus mortos à sua maneira. Quando há óbito, há comida e bebida, e isto torna-se frequentemente uma ocasião de diversão para aqueles a quem a dor menos aflige. As famílias visitam os enlutados e levam panos ou mantas que servirão para cobrir o morto, que neles será embrulhado e metido no esquife. As mantas que sobram são distribuídas, depois, pelos doridos. .Não admira, assim, que, habituados aos seus costumes pagãos, os nativos tenham procedido de maneira tão simplista. De manhã, o funeral era talvez um dos muito poucos que levavam padre, e os indígenas acharam que estavam fazendo uma grande coisa, ao transportarem, sem mais nem menos, o corpo para a igreja, ao encontro do sacerdote; de tarde, pretenderam, sem qualquer fundamento, seguir o exemplo do primeiro funeral, não sabendo, sequer, a diferença que aquele punha em plano superior (em termos religiosos). À tarde, era o enterro de um não baptizado. Teria sido diferente, se, seguindo os conselhos já dados pelo pároco, este tivesse sido solicitado na hora derradeira. Quanto estas almas pedem missão!...
Já expus, também, no mês passado, as dificuldades que atormentam o pároco, impotente para tão grande e tão diferenciado rebanho. Capelão militar, ele irá embora daqui a alguns meses. Outro virá, na melhor das hipóteses, mas outro, diferente. Depois, ainda outro… Oh! Como é grande a seara, e os operários tão poucos e sem meios!...
A hora que passa é a “Hora dos Leigos”. Não de alguns... de todos! De todos os cristãos, para que, unidos à Hierarquia, façam renascer a Igreja. Na África, o tempo urge. O terrorismo não é mais que um indício de que vamos atrasados! Estamos numa época de velocidades. Tudo corre, e também correm os conquistadores da pessoa humana. Nós, portugueses - todos -, temos de olhar de frente o problema. A gente do Ultramar pede, mais do que nunca, muitos e santos missionários. Mas, enquanto eles não chegam, que todo o branco traga uma cruz na mão, no peito uma chama ardente de caridade, na alma uma formação sã e arrebatadora. Este ideal está, porém, longe de ser atingido...
Graças a Deus, que já há missões de Leigos, em Angola. Amplos são os resultados. Mas, é preciso mais!...
Com os capelães militares, o problema missionário, agravado ao máximo com o terrorismo, foi em parte atenuado. Mas a solução é precária, e a isto conduz o carácter nómada destes sacerdotes. E, ainda, os capelães militares veriam o seu trabalho mais frutífero, se a seu lado trabalhassem os leigos com igual ânsia de apostolado.
De todos os cantos do torrão metropolitano saem jovens para as fileiras do Exército, para que no Ultramar mantenham íntegra a nossa Pátria. Importa prepará-los, para que sejam ao mesmo tempo soldados do Exército de Cristo. A Acção Católica tem aqui um grande campo de trabalho... E todos nós, todos vós, os que ficais. Orai!
Ambriz - Angola, Julho de 1964

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Para que da Memória se faça História

Apontamentos de um soldado em África - 15
Novas terras, novas gentes
O soldado em Angola quase se assemelha ao cigano, que, nunca estando bem numa terra só, procura continuamente novas paragens, em cumprimento do nomadismo que lhe está no sangue. Obedecendo a ordens superiores, eis que, também, não podemos nós ganhar raízes num único torrão, pois é mister que novos horizontes busquemos, a fim de que nos seja dado um relativo e legítimo bem-estar, após tempos passados em sacrifício, ou, saindo de uma zona mais ou menos calma, atendamos ao chamamento de outras onde se reclamem novas forças e frescos ânimos. Isto permite ao soldado melhor conhecer esta Angola que o chamou e mais aprenda da maneira de ser da sua gente, que, de região para região, tão manifestas diferenças apresenta.
Ficaram para trás essas matas tão frondosas como cheias de perigo, onde sangue dos nossos foi vertido, a selar para sempre a portugalidade destas terras; ficaram os penhascos agressivos e as picadas poeirentas e traiçoeiras; ficaram as emboscadas assassinas de uma guerrilha alimentada pelo ódio e pela subversão internacional comunista. Nova terra, agora, nos acolhe, mais atraente e mais calma, bafejando-nos com a brisa do oceano, no cair das tardes quentes e multicoloridas deste céu africano.
Novas terras... novas gentes! Novas gentes… novos problemas!
Enquanto que, antes, ocupávamos uma região praticamente abandonada, esta apresenta uma população mais ou menos numerosa, com brancos, mestiços e pretos. O habitat do aborígene, aqui, não se diferencia muito do tradicional. A sanzala situa-se na periferia da vila, ou junto ao mar. Não tendo a mata para se dedicar ao café e à caça, os homens ocupam-se da pesca e no trabalho das salinas. As mulheres, contudo, continuam a tratar das lavras (hortas), onde homem não mete mão; elas encarregam-se da agricultura, para cujo trabalho não causa impedimento o filho que trazem às costas ou que, enchendo-se de terra, brinca a seu lado. E é de certo modo consolador ver esses bocados de solo arenoso começarem a verdejar poucos dias após a sementeira, como retalhos pluriformes na extensa zona plana junto à praia. Deitaram à terra milho e jinguba (amendoim), utilizando ainda processos rudimentares, primitivos, mas as sementes hão-de germinar e contribuir grandemente para as suas subsistências.
O problema pastoral é de acuidade extrema. Grande parte da população nativa não é baptizada, embora se verifique, neste campo, uma tendência bastante acentuada e positiva por parte dos naturais. Mas não é fácil, como à primeira vista pode parecer, aproveitar esse movimento em procura da pia baptismal. Impunha-se organizar o catecumenato, cuidar mais da seara; contudo, o trabalho é sobremaneira pesado para o pároco local, cuja função é desempenhada em acumulação pelo capelão militar, que além das suas ovelhas paroquiais tem a tropa, espalhada por várias locais distantes, e que de modo algum poderá abandonar.
Alguns problemas de ordem moral, e de certo modo graves, se levantam também entre a juventude indígena, particularmente nas raparigas. A não ser a catequese, e, a este tempo, em precárias circunstâncias, nenhum movimento de apostolado existe na comunidade. E à juventude, a não ser a Igreja, mais ninguém pode aqui ensinar um caminho de plena realização de vida. A gente africana - já o disse nestas crónicas - tem pouca experiência dos padrões da nossa civilização, e, por outro lado, possui sentimentos delicadíssimos. O contacto com o europeu, quando este tem mais defeitos do que qualidades a pesar no prato da balança, pode ser-lhe, e é geralmente, prejudicial. Pode destruir-se o seu sistema tradicional de vida, sem integração natural num outro que supere o antigo. A facilidade com que, por isso, o indígena é influenciável pode permitir o caos moral... e é muito triste quando isso acontece!
O terrorismo, com o abandono de algumas fazendas e a consequente delimitação das áreas de livre circulação, trouxe algumas dificuldades em matéria de alimentação. Tal ferrete deixou também as suas marcas no quadro humano desta região, facto de que as crianças são a sua mais viva e negativa expressão. Não fique o leitor desta crónica, e por ela, com ideias aterradoras sobre o que nos cerca. Não! Situações destas encontram-se em todo a mundo, e seria criminoso escondê-las. Importa encará-las de frente e combater os males pondo os problemas em equação... Mas estas equações sociais não se podem submeter unicamente aos números da Estatística; a incógnita continuará persistente, se a caridade de cada um nós, em todos os prismas porque pode ser vista, não for uma realidade activa. Tal como noutros sítios já, vi o preto pedir trabalho e executá-lo como o branco, ou melhor. Daqui se prova, ao contrário do que muitos pretendem fazer crer, que o africano não é um preguiçoso por natureza. Ele trabalha, se as suas necessidades lho determinarem, e com ele podemos contar para a restauração da terra que ele e nós amamos, irmanados num mesmo ideal cristão o patriótico.
Eis que encontramos, por conseguinte, um novo campo de luta. Luta que já não é propriamente de armas, mas de corações e de almas. Que Deus nos ajude a cumprir a nossa missão durante estes meses que aqui estivermos: a trabalhar, se necessário mesmo para além das nossas forças.
Ambriz - Angola Junho de 1964

Para que da Memória se faça História

Apontamentos de um soldado em África - 14
Moralidade
Há tempos, li, numa revista angolana, um protesto escrito pela sua própria Direcção contra uma carta que alguém, com razoável bom senso, dirigira àquele órgão de imprensa, desaprovando certas ilustrações mais ou menos mundanas que o mesmo publicava de quando em vez. Li... e senti tristeza ao tomar conhecimento do critério pouco seguro e capcioso que essa revista utilizava para justificar as suas gravuras.
Não é sistema novo, explorar o sensualismo do leitor para que qualquer publicação atinja grandes tiragens. Infelizmente, a formação moral da nossa gente parece ter entrado em decaída. E se tal se pode afirmar da gente já madura, é trágica verdade que a nossa juventude sofre horrivelmente de idêntico mal. Assim, o melhor meio que qualquer editor menos sério tem a utilizar para obter grandes vendas das suas obras é “prantar” nas suas capas espampanantes figuras manchadas pelo indecoro moral, e célebres, muitas vezes, pelos escândalos mais escabrosos.
Só uma consciência empedernida poderá ficar insensível perante tais agentes de corrupção e, até, negar os seus efeitos tão deletérios. Só uma mente pervertida pode atribuir a esses manejos do mafarrico uma benéfica manifestação da mais pura arte.
Atravessamos um período acutilante, neste aspecto da vida. A pornografia, descarada ou camuflada, entra por todas as portas e em toda a parte. Vozes diversas têm clamado por todos os cantos contra esta invasão terrível. O alarme chega a tocar nos próprios estabelecimentos de ensino.
Também em Angola a campainha tem de soar. Quem pode – e todos podemos - deve trabalhar contra esta arremetida do inimigo.
Alguém disse, há muitos anos: “A corrupção há-de penetrar de tal modo em vosso meio, que, quando os vossos exércitos forem chamados a intervir, eles se desmoronarão. Não há dúvidas, pois, quanto à táctica inimiga. O materialismo marxista penetrará por qualquer forma e com os meios mais apropriados. A nossa juventude, uma vez pervertida, entrará nas fileiras já vencida e sem forças para segurar as armas. E mesmo sob a farda, os ventos da imoralidade não deixarão de a sacudir, porque eles nada poupam.
Há quem chame à pornografia “motores de arranque”. Talvez, à semelhança de imoralidades praticadas em algumas guerras, com o fim de levantar o ânimo à soldadesca vencida pelo tédio!...
Ah!... Se todos os exércitos tivessem um Nun'Álvares por chefe!... Que outro lenitivo mais forte pode um soldado cristão escolher, se não o seu Cristo, que no madeiro resgatou o mundo?!... Foi a Cruz que se ergueu sobre a terra, e não o abismo da ignomínia e da devassidão!
Clamemos, clamemos sempre! Lutemos, lutemos sem tréguas! Rezemos, rezemos com piedade! O inimigo avança traiçoeiro e quer minar os alicerces da nossa integridade. Urge abrir os olhos aos incautos. É grande mister sanar o ambiente conspurcado pelas mais corrosivas produções, e, sobretudo à nossa juventude, mostrar a luz deslumbrante da verdadeira moralidade, sem a qual a vida é caos insuportável.
Angola - Maio de 1964