sexta-feira, 18 de março de 2011

Para que da memória se faça História

O dia em que caçámos um leão...

Regressávamos ao aquartelamento, depois de uma “operação” de rotina. Era já fim de tarde, e a noite cai depressa, depois de o sol desaparecer no horizonte, naquela zona tropical de África.

Estávamos já com o aquartelamento à vista. À frente, seguia o unimog 404 onde eu tomava lugar, ao lado do condutor. Na caixa da viatura, sentava-se uma secção de militares, costas com costas em banco central, prontos a responder a qualquer eventualidade de emergência. O carro não tinha taipais nem capota, como era de uso. Atrás de nós, uma berliet, com mais pessoal. Não recordo, de momento, o que tínhamos ido fazer, mas talvez regressássemos de Chiticula, onde estava colocado um pelotão da Companhia, estacionada no meio do distrito de Tete – Moçambique, cerca de 50 km a norte de Cabora Bassa, nas margens do rio Capoche, um ramo afluente do rio Zambeze.

De repente, os soldados alertam para uma peça de caça grossa que atravessa a estrada, da esquerda para a direita, e se embrenha na savana. Era uma tentação, a perspectiva de carne fresca que a ocasião nos oferecia. Logo se inicia a perseguição do animal - uma espécie de impala – que não resiste ao fogo certeiro dos nossos “caçadores” de ocasião.

A estrada tinha ficado a alguma distância, pela penetração das viaturas no mato. Enquanto o pessoal operava para recolher na berliet o produto da caçada, um soldado africano alerta em comentário:

- Ela (tratava-se de uma fêmea) ia a fugir do leão.

Logo perguntei:

- Como sabes isso?

Ele respondeu:

- Eu ouvi.

O que o militar queria dizer é que, entretanto, tinha ouvido um rugir de leão, nas proximidades, e esse facto causou-me alguma preocupação. Assim, ordenei que apressássemos o regresso à estrada (de terra batida), até porque a luz do dia ia desaparecendo progressivamente. Era quase noite.

Já na estrada, e uma vez carregada a caça na viatura, retomámos o movimento em direcção ao quartel, cujas luzes já se divisavam ao longe. Tudo ia bem, quando, a certo passo do andamento, aparece um vulto no meio do caminho, que fez o condutor abrandar a marcha e, até, parar. A noite tinha deixado cair o seu manto, e as viaturas circulavam já com os faróis ligados. De tal modo a figura se apresentava no lusco-fusco da penumbra, impávida e serena à nossa frente, que dava a ideia de ser uma pessoa... Alguém aventou que parecia “um homem em cuecas”. Confuso!

Levantei-me, e agarrei-me ao varão do pára-brisas... Disse para o condutor:

- e a luz nos máximos!

Assim aconteceu, e logo diante de nós, no meio da estrada, de caras, a cerca de oito a dez metros de distância, se nos apresenta a figura de um avantajado leão, com juba e tudo. Silêncio absoluto, só entrecortado pelo ralenti do motor do unimog. Ninguém ousava falar.

Sabia-se que, numa situação destas, o animal, encandeado pelos faróis do carro, tentaria um envolvimento para atacar a presa (nós) por trás... Talvez para isso, começou lentamente a virar-se de lado, e ficou numa posição perpendicular ao eixo da estrada. Na verdade, o receio, naquela altura, era que a fera saltasse sobre o pessoal que viajava a descoberto no unimog.

O que se passou a seguir, foi espontâneo, impensado, produto de reflexo. Vendo o animal naquele posição, senti que era a ocasião de jogar: ou tudo, ou nada, mas convicto de que não havia outra escolha. Dei comigo a levar a G3 à cara...; mirei a espádua do “bicho” (tinha a noção, adquirida, que desse modo atingiria o coração do animal) e disparei. O leão deu dois passos adiante, e aninhou. Os soldados alertavam que ele poderia estar a “fazer de conta”, e animal ferido é ainda mais perigoso.

Ninguém desceu da viatura para ir verificar se o leão fora ou não abatido. Manobrou-se o unimog de modo a ficar de frente e perto da “vítima”, e, pelo sim pelo não, confirmámos o “sucesso” com mais dois tiros. O leão estava morto!

Nova fase de carregamento: agora, do leão para junto da impala, na Berliet. Mas de novo o soldado africano que tinha, antes, ouvido o leão, voltou a avisar:

- A leoa deve estar por perto...

- Era o que havia de faltar!... Já chega, e é noite. Vamos embora!... - disse eu.

Entretanto, no quartel, o pessoal não sabendo o que se passava, mas apercebendo-se de que algo de anormal acontecia connosco, estava em palpos de aranha, e aprontava-se para qualquer eventualidade. Quando as viaturas galgaram a rampa de acesso e romperam pela parada adentro, todos nos aguardavam de olhos esbugalhados. Perante a algazarra dos que chegavam, em gáudio pela proeza levada a cabo, e ao verem o leão na berliet, morto, ao lado da impala, todos estouraram em euforia.

Era noite. Por isso, as fotografias ficaram para o dia seguinte, mas passados poucos minutos... o leão já não tinha rabo, nem dentes, nem unhas... Estes troféus desapareceram rapidamente... E logo de manhã, então, os rolos fotográficos da cantina esgotaram-se. Toda a gente quis tirar o retrato com o leão: acavalitavam o bicho, puxavam pela juba a sua grande cabeça contra o peito, ou punham o pé em cima do dorso... Foi um desfilar de pretensos heróis, em Cangombe.

Ainda se tentou aproveitar o último despojo “de guerra” – a pele. Porém, com o tempo, e com a chuva, acabou também por se estragar, apesar de aplicados alguns entendidos cuidados técnicos de curtimento para a preservar.

Do evento, ficaram mesmo, e só, as fotografias, para recordação da proeza... Afora quem se locupletou, à socapa, com o rabo, os dentes, e as unhas do leão... morto em legítima defesa.

Mas foi por causa deste acontecimento, que os soldados passaram a intitular a Companhia pelo listel " Leões do Capoche"

(CArt 2628/BArt 2897)

Para que da memória se faça História

“Os bombeiros do Capoche”

Dia quente era aquele, de Fevereiro de 1970, na ZOT – Zona Operacional de Tete, Moçambique. Duas horas da tarde. Depois da segunda refeição, andava eu com outro oficial a mostrar ao Fumo (chefe) da aldeia que se estava a formar junto ao aquartelamento o local onde iríamos, em princípio, erguer mais cubatas para as populações recuperadas que chegavam do mato...

Admirávamos, de cima da ponte, o curso do rio Capoche, acariciados por uma deliciosa aragem fresca que corria suave sobre as águas. Dava vontade de navegar, de canoa ou jangada, por ali abaixo, ao longo dos cinquenta quilómetros que nos separavam da barragem de Cabora Bassa, no Zambeze, já em construção.

A perturbar este remanso da Natureza, correu até nós, descendo a picada desde o aquartelamento - que ocupava um morro na margem esquerda deste rio - o cabo de serviço à estação de rádio, e gritou:

- Do Batalhão, mandam sair imediatamente uma patrulha até ao rio Luia era a mensagem que trazia o militar.

- Responde que não é preciso – repliquei - porque saiu há pouco tempo uma coluna nossa com esse destino.

E o cabo lá subiu ligeiro a encosta, de regresso ao rádio para transmitir a mensagem resposta.

Continuámos a deliciar o nosso olhar pela maravilhosa paisagem selvática africana, de uma beleza rude mas atraente, a pulsar de sonho e de mistério. Ao redor, um ou outro pássaro exótico competia, em sonoros acordes, com o marulhar das águas do rio na correnteza.

Mas eis que o cabo telefonista volta a descer em corrida e proclama ofegante:

- Dizem que é por isso mesmo... Ouviram um rebentamento, e pareceu-lhes ser para os lados da auto-estrada.

Chamávamos “auto-estrada” ao percurso de terra batida que ligava Cangombe, onde estávamos, até Moatize (Tete), passando pelos vários aquartelamentos das nossa tropas. O mais perto, a cerca de duas dezenas de quilómetros, era o do Luia, na margem esquerda do rio com esse nome, a confluir, mais a sul, com o nosso rio Capoche, rumo ao Zambeze. Cerca de uma légua mais á frente, encontrava-se o quartel do Comando do Batalhão, no Bene.

Ouvida a mensagem, não foi preciso mais nada. Rapidamente vencemos o caminho ascendente até ao aquartelamento. Aqui, já tudo andava em rebuliço. Havia só um “pincha” (unimog 411) e o carro da água (outro unimog 411 equipado com o tanque da água, para reabastecimento diário do quartel). Uma força de voluntários se constituiu, “enquanto o diabo esfregava um olho”. Passados instantes, já marchávamos estrada fora, com as únicas viaturas que estavam à nossa disposição: o “pincha”, à frente; o carro da água, atrás, com o pessoal encavalitado como podia naquele barrigudo com tentáculos de mangueira, a segurar estas com uma mão e a espingarda (G3) na outra.

Pontos perigosos do itinerário: saltar, correr em marcha apeada; subir de novo...

- Cuidado!!! O In pode associar qualquer emboscada ao que possa ter acontecido (todos supunham ter havido um rebentamento de mina...).

Divisa-se, mais além, uma coluna de fumo. Imagina-se logo um cenário de tragédia: viatura destruída, corpos despedaçados... - A coluna deve ter “apanhado” com uma mina – ouvia-se... Em nossa mente, pressentimentos cruéis: feridos, mutilados, dor, gemidos...

A estrada vai-se galgando, e o carro da água lá vai saltitando, atrás do pincha, todo vaidoso por também ser “operacional”. Na dianteira, os bravos soldados aperram as armas, prontos a ripostar a qualquer ataque inimigo.

- Talvez depois daquela curva... Ou daquela lomba...

Mas nada! O coração aperta-se... Surge a ponte sobre o rio Luia.

- Graças a Deus! Já estamos no Luia. Mas... e as viaturas?... A coluna?... A mina?... Os feridos?...

Percorremos toda a ponte, e logo mais adiante, à esquerda, o quartel da companhia do Luia.

Entrámos na área do aquartelamento. Ainda não eram três da tarde. As viaturas, apesar de apenas duas, fizeram um certo ruído. Logo apareceram, sonolentos, pela sesta interrompida, alguns militares... Oficiais, sargentos e praças, que olham para nós com ar estupefacto e interrogativo:

- Que se passa?!...

E vendo o “carro da água”:

- Onde é o incêndio?... Não chamámos os bombeiros!...

Viaturas paradas... Interrogação e surpresa em todos os rostos. Esperávamos uma notícia desagradável, e apenas isto nos surge!... Respirámos de alívio. Mas ali estava o carro da água com os soldados nele empoleirados, segurando as mangueiras e de olhos esbugalhados pelo insólito. Pareciam mesmo bombeiros à cata de um incêndio!...

Não tinha havido mina, felizmente. O nosso pessoal – a coluna – havia passado ali em boas condições, são e salvo, a caminho do Bene, e, pela rádio, soubemos que já se encontrava lá. Mais tarde, esclareceu-se que tudo surgiu porque, na área do Comando do Batalhão, algum espertinho tinha lançado uma granada de mão ofensiva na margem do ribeiro que perto corria, na mira de apanhar alguns peixes, e a explosão confundiu os “entendidos” daquela nossa tropa, associando o som do rebentamento a uma possível mina accionada na “auto-estrada”, por onde sabiam estar em marcha a nossa coluna de viaturas.

Para susto, tinha chegado. Lucrou-se o exercício de prontidão operacional, a qualquer custo, e com quaisquer meios... Mas não nos livrámos da chacota que os militares do Luia nos endereçavam a partir daí, e por esse feito ficámos a ser conhecidos como “Os Bombeiros do Capoche”.

(CArt 2628/BArt 2897)

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

O Silêncio dos bons...

“O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons.”

(Luther King)

Este nosso Mundo, criado por Deus, está assente na Harmonia... Nada está desequilibrado, e toda a criação cumpre a sua missão, na mira de um sentido impresso desde origem.

Foi e é o homem que quebrou e continua a quebrar essa harmonia, esse equilíbrio. E este facto está simbolicamente relatado na tentação da serpente, no Génesis: "Sereis como deuses…".

É nessa ânsia de se fechar em si próprio, de se tornar “deus” em e de si mesmo, que o homem atraiçoa a sua vocação existencial. Rompe o equilíbrio; desfaz a harmonia; autocondena-se ao niilismo egocêntrico. É esse o seu pecado - o "pecado original", que acompanha, na sua existência, esta pobre Humanidade.

Podia não ser assim?!...

Não pudesse ser assim, o homem não seria um ser livre, embora com uma vocação dimensionada ao Infinito.

Toda a restante criatura universal é determinada, mas o ser humano é "livre". Por isso, fazendo o que quer (conscientemente), arrasta também com os seus actos as consequências, sobre si próprio e sobre todo o meio natural e humano onde vive, em partilha de projectos e de realizações, para o bem e para o mal.

O homem é um ser social, e como tal é a alma do Mundo. Não existe por si mesmo e para si mesmo; é um ser relacional, incompleto, em aperfeiçoamento contínuo. Para se realizar tem de se projectar na direcção de um tu. Mas é precisamente nisso que está estruturada a sua dignidade: administrador do seu destino. E esta administração desenvolve-se numa permanente e progressiva descoberta: “Quem sou, donde vim, para onde vou (ou devo ir, e como)?

Contava-se na catequese às crianças, em maravilhoso e sugestivo diaporama, a história da “Bonequinha de sal”, que ajuda a dar resposta a estas interrogações. Saída do íntimo da montanha, esse pedacinho de sal-gema feito menina, resquício de uma época em que o mar cobria o solo agora seco, ansiava por encontrar o Mar, que lhe haviam revelado como a origem da sua existência. Deambulou de terra em terra à procura do mar... porque só aí encontraria a felicidade, a razão do seu viver. Perguntou aos rios, aos lagos, às fontes... “- És tu o mar?”, e toda a resposta negativa fazia crescer mais o seu sofrimento. Finalmente, atravessando montes e vales, chegou à vista deslumbrante do oceano. Que imensidão! Que beleza!... Já na praia, correndo pelo areal, lançou de novo a pergunta: “ - És tu o mar? “... e o mar respondeu: “Sim, sou eu o Mar!”. Era realmente ali o Mar. A bonequinha tinha encontrado a fonte original da sua vida. Estava feliz. Não precisava de mais nada. Caminhou até ao quebrar das ondas, e penetrou nas águas... Viu que os seus pezitos se diluíam nas águas do mar. Foi avançando, e à medida que entrava mais no mar, o seu corpo desaparecia nas águas, até que se integrou totalmente no oceano, sem perder, contudo, a sua individualidade. Mistério. Já vindo de um pouco longe, ouvia-se ainda, na praia, a voz da bonequinha de sal, emanando das águas do mar:

– Estou feliz. Reencontrei finalmente o Mar, donde nasci!

Também o homem é um viajante na História, um peregrino na sua própria vida. O horizonte de cada vida humana está sempre a dilatar-se, e a Humanidade, sempre em contínua evolução, progride em aperfeiçoamento, ao encontro da realização plena. Arrastamos connosco toda a Criação, desde a origem, desde o ponto Alfa, disparados para o ponto Ómega – o Cristo total, que S. Paulo definiu na sua fé doutrinal, e Teilhard de Chardin vislumbrou nas suas investigações científicas.

Se a boneca de sal não se abrisse, na sua ânsia, à imensidão da sua origem; se aquele bocadinho da criação do Mar, depositado nas entranhas da Terra, se fechasse egoisticamente dentro dos seus limites individuais, ter-se-ia fatalmente desfeito no niilismo, por não encontrar a razão do seu viver. Ora, como a bonequinha desta história, somos nós, humanos, seres contingentes, que só existimos em razão da Fonte da vida, e, por vocação, para ela tendemos, em liberdade de escolha, para nos realizarmos ou não.

É neste dualismo do ser e não ser, do claro e escuro, da luz e das sombras, do bem e do mal, dos bons e dos maus, que tem lugar a preocupação de Luther King: é mais pernicioso o silêncio dos bons, que o grito dos maus.

É na luz do Sol que ilumina a Terra, que todas as manhãs a escuridão da noite se dissipa. É na alegria que entusiasma as almas e nos dá razões de viver, que a tristeza opressora desaparece. É contra a coragem empreendedora e o exemplo frutificante dos “bons”, que se desfaz a arrogância gritante dos “maus”.

Mas quem são os bons e quem são os maus?...

Daria “pano para mangas” tentar encontrar, com exactidão, resposta a esta pergunta. Contudo, julgamos que tudo se poderia resumir, com lucidez bastante, à parábola evangélica do bom samaritano (Lc 10, 25-37). Ou, então, atender ao mandamento novo de Jesus de Nazaré: “… Amai-vos uns aos outros. Como eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros” (Jo 13, 34). De outro modo, continuando a ouvir o Salvador: “Por que me chamas bom? Ninguém é bom senão um, que é Deus.” (Mc 10, 17)

Poderíamos então concluir que, sendo o homem criado à imagem e semelhança de Deus, os “bons” são aqueles que na sua vida prática mais configuram o seu comportamento à vontade do Criador.

O drama deste mundo e desta nossa humanidade não é, de facto, que existam os maus, que exista o mal, mas que os “bons” fiquem calados e de braços caídos perante tanta necessidade de promover, proclamar e defender o Bem e a Verdade, para que o mundo se harmonize. E é aqui que se torna imperioso, também, o empenhamento pela Justiça, porque veículo e fundamento da Paz.

É isto que dá nobreza à Politica, e ajuda a compreender a tragédia que desaba sobre os povos quando nas cadeiras do poder se sentam os maus políticos, perante o silêncio complacente dos que poderiam fazer alguma coisa pelo bem comum.

sábado, 22 de janeiro de 2011

Para que da memória se faça História

Há sempre milagre... no meio de todas as tragédias

Corria o ano de 1970. Havíamos chegado, há poucos meses, à nossa posição, no distrito de Tete, Moçambique. Ocupávamos o cabeço de uma pequena elevação, que dominava um vasto planalto bordejado de montanhas no horizonte e em todo o redor. O aquartelamento da Companhia era formado por umas três barracas de zinco e algumas construções de adobe com cobertura de capim. O rio – o Capoche – passava em baixo, no sopé do pequeno monte. Uma estrada razoável, de terra batida, a que chamávamos de “auto-estrada”, ligava-nos ao quartel mais próximo, a vinte quilómetros de distância, em pleno mato deserto. A actividade operacional desenvolvia-se no seu ritmo programado.

Um dia, ao fim da tarde, tendo eu ido à arrecadação de material, vi que o M..., o cabo quarteleiro responsável pela mesma, estava, com mais dois companheiros (na tropa, camaradas) a rezar o terço. Aproveitei o ensejo para sugerir, então, que poderíamos construir uma pequena capela, dentro do aquartelamento, e fazer do «Terço» uma prática diária, de piedade, pública, para quem quisesse aderir.

Pegada a ideia, no dia seguinte já o M... com o seu auxiliar deitavam mãos à obra, e com ramos de palmeira, capim e alguns pequenos troncos de árvore, depressa deram como pronta a capelinha, com altar e tudo. Ao lado direito do mesmo altar, uma barrica cortada a meio ia ser o nicho para alojar uma imagem de Nossa Senhora, o Coração de Maria de Fátima, que, da Metrópole, eu encomendara para o efeito. Ficava linda, ali, a Virgem Mãe, tendo a seus pés uma nuvem feita de algodão em rama obtido no posto de socorros da Companhia. Todos os dias, ao toque de sineta, a capelinha enchia-se de devotos, e rezava-se o terço.

Certa vez, ao jantar (o prato era bife com ovo a cavalo, depois de algumas semanas de penúria por falta de reabastecimento) ouviram-se uns estalidos à distância, e ficámos de orelhas afitadas... Não tardou que as granadas de morteiro começassem a ribombar em redor, acompanhadas de rajadas de metralhadora, vindas de algumas elevações da vizinhança. O pessoal, já anteriormente testado por simulacros de ataque, em exercícios dentro do plano de segurança e defesa do aquartelamento, ocupou rapidamente as suas posições e respondeu, adequadamente, à flagelação.

Dentro em pouco, vi que o M... era transportado em braços para o posto de socorros, banhado em sangue. Tinha uma face do rosto dilacerada, certamente por uma bala inimiga. O impacto do projéctil tinha-lhe, também, deixado em cacos o maxilar. Não podia falar, mas de olhos abertos e por gestos, já na enfermaria, pedia papel para escrever. Sobre alguns aerogramas do Movimento Nacional Feminino, foi escrevendo documentos impressionantes, ensanguentados - que ainda guardo -, dirigidos à sua mulher, aos seus camaradas, e aos seus superiores. Pedia perdão por todas as eventuais ofensas, na convicção de que iria morrer, e, à sua esposa, guardava palavras... que aqui não vou revelar.

De noite não havia qualquer hipótese de evacuação aérea. O hospital militar de Tete estava a largas dezenas de quilómetros. O único médico a quem se podia recorrer, pertencia a outra unidade, à distância de uma vintena de quilómetros. Mandar uma força buscá-lo, àquela hora, e naquelas circunstâncias, era praticamente impossível. Todas as colunas se faziam de dia e «picando» a estrada, na detecção de minas, e, após um ataque, mandar sair uma força para o exterior, sem aqueles procedimentos de segurança, era colocar mais vidas em risco, no pressuposto de que o itinerário estava, segundo as práticas conhecidas, minado. Dramático, ter de decidir, entre uma vida que ali se perdia, esvaindo-se em sangue, e o risco de atirar para a morte outras vidas, na busca do médico. Um corajoso furriel, avançou e cortou o «nó» do dilema: «Eu vou!».

Entretanto, o ataque havia parado. Na cabana que servia de messe, a lanterna focou um gato, em cima da mesa, que se aproveitava da miséria dos outros para tirar..., da sua barriga, as misérias... dele. Para o gatinho... ficara guardado o bocado, que outros não havia comido, apesar de uma espera de semanas pela tão desejada carne.

O furriel A... partira, com alguns voluntários, para o comando do Batalhão, em busca do dr. G. ... Ficámos, assim, com um homem... a morrer, e com o coração apertado, porque outros mais poderiam perder a vida no caminho. O “milagre” estava a acontecer... Dentro de duas horas, o pessoal chegou sem problemas e com o médico. Mas seguiu-se uma desilusão: o clínico, diante do quadro que se lhe deparava, nada podia fazer... Nem havia possibilidades de recorrer a uma transfusão sanguínea.

Enquanto isso, o M..., deitado de lado na maca, todo ensanguentado, continuava a escrever, como podia, nos vários aerogramas que lhe iam dando... Não muito distante, alguns militares, sem respeitos humanos, rezavam na capelinha que o M... construíra, pedindo o auxílio do Céu para o camarada e amigo, que se debatia entre a vida e a morte...

A evacuação por helicóptero já tinha sido pedida, via rádio, aos comandos superiores. O médico e o furriel enfermeiro, como os socorristas, rodeando de cuidados o M..., sentiam-se impotentes, e eram de opinião que ele não resistiria muito mais. Esgotara-se o plasma, as compressas, até mesmo o algodão... Não havia mais nada a fazer.

Alguém lembrou, então, que, aos pés da imagem da Virgem Maria, na capelinha onde se costumava rezar o terço, havia algodão, a imitar uma nuvem branca. Rapidamente se deu ordem para ir buscar essa nuvem, dos pés de Nossa Senhora. Trouxeram-na, já cheia de formigas... Os pés de Maria ficavam sem o afago da nuvem branca, mas o M... precisava do algodão, e a Mãe do Céu não lhe negaria esse auxílio.

O tempo passava, lento e dilacerante. O M... resistia, incompreensivelmente, sem nunca perder a consciência. De manhã, outra contrariedade surgia: o helicóptero não podia levantar de Tete, por falta de tecto para a navegação aérea. De facto, depois daquilo tudo, só faltava mais essa: das condições atmosféricas adversas.

Meio dia, no «day-after» da tragédia. O M... resistia. Com o céu mais aberto, chega finalmente o helicóptero do socorro. Procede-se à evacuação, e o M... é levado de maca para a aeronave, estacionada no campo de futebol. Os olhares circunstantes são de perplexidade, mas de muita esperança, agora mais fortalecida. Consciente, o Cabo M..., lança um último olhar para os que ficam, e levanta a mão num reconhecido adeus.

O helicóptero levantou, e levou consigo aquele ferido, com metade do rosto desfeita, sem poder falar ou sorrir, mas com uma alma grande e um coração agradecido à Virgem Mãe, que lhe forneceu a nuvem branca que tinha a seus pés, como derradeiro mas eficaz meio de socorro, para, em situação tão dramática, continuar a viver.

*

Resta dizer, para concluir, que o M..., casado e pai de filhos, sobreviveu aos ferimentos recebidos, apesar de todos os prognósticos negativos. Depois de longos meses de tratamento hospitalar e de várias intervenções correctoras, refez a sua vida, que lhe não tem sido fácil, não por causa dos ferimentos recebidos, mas por outras circunstâncias de percurso. Contudo, lutador persistente, e homem de muita fé, hoje está bem, embora com algumas deformações no rosto, e diz que teve a experiência de Job: tudo lhe foi tirado, e tudo lhe foi restituído em abundância.

sábado, 18 de dezembro de 2010

Natal 2010

Natal é Paz, Amor, Perdão.
Natal é Esperança num Mundo Melhor.
Natal é Vida que se abre em flor...
Natal é rasgar o peito pelo irmão.

...

Oh! Triste dor da Humanidade,
Que sofre em toda a parte ódios sem fim!...
Levantem-se os profetas de Israel,
Tragam Abraão, Moisés e Samuel,
P’ra anunciar de novo a Liberdade
Que um Menino traz num mundo assim...
Acorrentado ao prazer e à maldade.

...

Cantemos com os anjos nas alturas
Hinos de glória e de louvor!
Esqueçamos, todos nós, tantas agruras,
Pois vai nascer de novo o Redentor!

V.S. 2010

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Para que da Memória se faça História

Episódios do “Verão quente de 75” - III (*)
3. Segunda experiência na Serra do Pilar
Entretanto, a 12 de Setembro, há mudanças no Quartel-General. O Comando da Região é assumido pelo então Brigadeiro Pires Veloso. Também, na sequência, o oficial que comandava o RASP é chamado para assumir funções no QG. Na Serra do Pilar fica no comando outro oficial superior (major), com uma desgastante e dolorosa perspectiva no seu horizonte profissional e pessoal. Há situações, na vida de quem comanda, que exigem o máximo de doação, de acrisolado bom senso, e sentimentos de humanidade bem afinados. O novo comandante pertencia a uma geração desse tipo.
O CICAP (Centro de Instrução de Condução Auto do Porto), onde pontificavam alguns milicianos esquerdistas, encerra a 3 de Outubro, por ordem de Pires Veloso, que destina o complexo edificado à Saúde e ao Ensino.
Na noite de 6 para 7 de Outubro, o quartel da Serra é invadido por manifestantes, militares e civis, que se haviam dirigido ao CICAP com o fim de protestar contra o seu encerramento e, possivelmente, invadir e ocupar o quartel (é conhecido o “slogan” vociferado na altura: “O CICAP é do Povo, não é do Veloso!”).
Não conseguindo os seus intentos, face a uma guarnição já precavida, a turbamulta dirigiu-se, então, para a Serra do Pilar. Aqui, com a conivência de graduados de serviço afectos ao movimento contestatário, os manifestantes lograram transpor os portões do quartel, e aí “armaram tenda”. Qualquer reacção violenta que tivesse sido ordenada, após o facto consumado, para contrariar a “invasão”, teria provocado consequências dramáticas imprevisíveis – alguém haveria de desabafar mais tarde que o motivo que evitou o confronto foi, ponderadamente, evitar-se o derramamento de sangue; um simples fósforo aceso poderia, na conjuntura, desencadear uma guerra civil.
Seguiu-se uma situação de quase anarquia, a todos os títulos insustentável.
No dia 8 de Outubro, à noite, e após um comício no Porto, manifestantes do PPD decidem, por isso, dirigir-se, em peso, ao quartel da Serra do Pilar para aí se manifestarem contra a ocupação e, quem sabe, libertar a Unidade. Os ocupantes, porém, avisados deste intento, conseguem mobilizar toda a guarnição de praças e de civis, ocupantes e sitiantes, contra o que anunciam ser um ataque ao Quartel pelas forças de direita. Descem, então, até junto da ponte de Luís I, onde tentam barrar o caminho aos manifestantes, com o apoio de duas pesadas viaturas militares de combate que, para o efeito, a esse local fazem conduzir.
No mesmo cenário de intensa agitação, ao fundo da Av. da República, comparecem também forças militares a mando do Quartel-General, para manutenção da ordem e evitar a violência. Uma rádio transmite em directo o evento, e ouvem-se, na reportagem, os avisos feitos à multidão pelo comandante da força, tentando apaziguar os ânimos. Logo a seguir, são sonoros e nítidos alguns disparos de armas automáticas. No dia seguinte, a situação apresentava-se confusa.
No QG, pouco ou nada se sabia sobre o que, em pormenor, se passava intra-muros na Serra do Pilar. Os telefones estavam controlados. No interior do RASP, a vida normal da Unidade parecia ter parado. Os portões estavam fechados, e, fora, permaneciam montes de gente com ar ensonado, mas agressivo e vigilante. O rescaldo de uma madrugada de luta. Lá dentro, os ocupantes (militares revolucionários oriundos de outras unidades e civis) organizavam-se, e recebiam apoio logístico, vário, do exterior. Na parada, oficiais e sargentos da Unidade tentavam fazer o ponto da situação, e interrogavam-se sobre perspectivas de solução a tão nefasta como perigosa situação em que se viam envolvidos.
Esta situação rocambolesca durou alguns dias, até que, em 14 de Outubro, o então Chefe do Estado-Maior do Exército, General-graduado Carlos Fabião, visitou o RASP e dialogou com os cabecilhas. Propôs-lhes o abandono das instalações do Quartel, com o anúncio de que iria transformar o CICAP numa unidade militar de elite, a que daria o nome de “Batalhão 25 de Abril” .
Os invasores concordaram, e dispuseram-se a retirar… Com uma condição: voltariam passados 10 dias, a ver se as promessas eram cumpridas.
E voltaram!
Mas, como o povo diz: “Depois de casa roubada, trancas às portas”, este aforismo foi devidamente aplicado.
É que em 10 dias muita coisa tinha mudado.
A normalidade havia regressado ao quartel da Serra.
Um novo comandante assumira funções.
As tropas regressavam à disciplina e ao cumprimento dos seus deveres e tarefas.
4. Epílogo
As instalações do CICAP acabaram por ser de facto destinadas ao Ensino (Universidade) e à Saúde (Hospital).
E a “Revolução” foi, a seguir, mitigada com o “25 de Novembro”.
Pires Veloso, que viria a sofrer um “misterioso” acidente de helicóptero em Lavadores, adquirira merecido prestígio militar e político, a ponto de ser cognominado pelos formadores de opinião “o Vice-Rei do Norte”.
Jaime Neves, à frente dos seus “Comandos”, em digressão de treino e dissuasão, viria desfilar, em parada de continência, na Av. da Boavista, frente à janela do Hospital Militar de D. Pedro V, onde o sobrevivente e politraumatizado Brigadeiro sem medo acenava, comovido.
Tinha-se virado mais uma página da História de Portugal, e nela o Norte escrevera o significado da palavra liberdade – da autêntica Liberdade!
(*) – São omitidas nestes relatos referências nominais aos protagonistas dos acontecimentos evocados, quando não sejam do conhecimento universal.

Para que da Memória se faça História

Episódios do “Verão quente de 75” - II (*)
2. Primeira experiência na Serra do Pilar
No quartel do RASP (Regimento de Artilharia da Serra do Pilar), encontrei um ambiente ainda mais «revolucionário» do que no anterior GACA 3, de Espinho. Tudo já era diferente.
Comandava a Unidade um Major de Artilharia, homem experimentado, sensato, e de grande “tarimba” militar (hoje coronel, na sit. de reforma). Segundo soube, o seu antecessor (já falecido, no posto de coronel), não teria suportado a situação a que se tinha chegado, com a indisciplina grassante após o “25 de Abril”, havendo renunciado ao cargo. Estavam muito activas as ADU (Assembleias de Unidade), uma emanação da organização suvista (SUV - Soldados Unidos Vencerão) promovida em Agosto pela LCI – Liga Comunista Internacionalista. Faziam-se «plenários» amiúde. Era “dirigente” influente nesse «esquema» um oficial miliciano (Alferes), que tinha os seus assessores entre as praças. Uma espécie de «comissariado político».
O diálogo com os elementos revolucionariamente mais activos do Quartel tinha de ser permanente, pois, por dá cá aquela palha, sempre apresentavam questões a resolver, reivindicações de toda a ordem e feitio.
Nos frequentes “plenários”, eram factor de «desmobilização» intelectual as intervenções de um conhecido capitão da Unidade (hoje coronel na situação de reforma), homem com uma intrepidez imaginativa fora do vulgar, de espírito flamejante, e dotado de uma rica capacidade dialéctica. Também o próprio capelão militar, homem do Norte e de uma cultura filosófica afinada, ripostava à «maralha» marxista-leninista com argumentos adequados e imbatíveis. Lembro que, nas suas prelecções, chegou a versar temas sobre educação sexual, munindo-se do «Fritz Khan», talvez para, no âmbito da sua missão formativa, ocupar, de modo mais aliciante, o tempo gasto nas arengas de mentalização política, e desviar a mente da soldadesca para outras ideias menos agressivas. Importa referir que nem todo o pessoal das «assembleias» tocava música pela mesma partitura, mas, nessa conjuntura, a diferença exigia heroicidade, resultando daí uma espécie de sintonia geral forçada. Contudo, muitos tinham ideias próprias e não bebiam água pelas bicas de Moscovo ou de Pequim.
Recordo que, naquela altura, ao ouvir os «slogans» e as reivindicações dos revolucionários, eu dizia: «Fecho os olhos, e só vejo as “banjas” e as manifestações do PAIGCV», tais eram as cicatrizes que ainda marcavam o meu subconsciente, pela situação vivida, um ano atrás, em território da Guiné. Os problemas no exterior também davam que fazer ao Quartel, e, frequentemente, um oficial (o já referido capitão, acima citado), como delegado da Unidade, tinha reuniões na Câmara de Gaia, com o elenco dirigente do Município.
Era um tempo de agitação, em que as forças políticas locais lutavam pelo domínio e liderança das massas populares. Certa vez, em dia de domingo, à tarde, o próprio elemento camarário que exercia as funções de presidente apareceu na Serra do Pilar. Esteve no bar de oficiais e mostrava receio do que lhe pudesse acontecer, dizendo que andava sempre armado de pistola, para sua defesa. Surgiam, em Gaia, manifestações anti-comunistas, e ele queixava-se de que, nesse dia, nos Carvalhos, no decorrer de uma sessão de esclarecimento, junto ao pavilhão do clube de hóquei, tinha mesmo sofrido ameaças à sua integridade física.
Na Serra do Pilar, também a situação reivindicativa das praças não parava, a ponto de, como solução de recurso, o comandante ter decidido, em determinado dia, que “a partir de amanhã”, todos passariam a ter as refeições em comum no refeitório das praças. Foi, porém, o epílogo da indignidade, talvez inevitável, mas caiu-se a um nível de degradação impressionante, só lentamente corrigido com o passar do tempo: à hora da segunda refeição, oficiais, sargentos e praças, todos a monte, acotovelavam-se à entrada para o refeitório geral, e ocupavam as mesas, indiscriminadamente, à medida que junto delas chegavam. Não havia qualquer precedência de posto ou graduação (mesmo inversa). Todos iguais: na colocação das terrinas, na distribuição da comida, no levar para a copa os pratos e talheres, e rapar as sobras para os caldeiros respectivos...
E como podia haver conversa e partilha, à mesa, com pessoas culturalmente tão diferenciadas, com interesses específicos, e, se calhar, a desconfiarem umas das outras? Similar panorama se passava nas salas-bar de oficiais e sargentos... Eram frequentadas por todos. Um rompimento total na disciplina e tradições anteriores, a proporcionar um ambiente pesado e carregado de suspeições. Todos eram «iguais»... O respeito e a hierarquia, pilares estruturantes das relações entre militares, diluíam-se... Qualquer atitude tendente a corrigir alguma entendida anomalia podia ser considerada «fascista», a originar notícia nos boletins ou panfletos revolucionários, clandestinamente difundidos. Sentiam, os graduados, que eram permanentemente «vigiados» pelos subordinados, mesmo disfarçadamente, que logo comunicavam ao «sistema» revolucionário os seus deslizes relativamente aos seus padrões.
(Continua)
(*) – São omitidas nestes relatos referências nominais aos protagonistas dos acontecimentos evocados, quando não sejam do conhecimento universal.