Nasce o sol em novo dia,
Traz luz calor, alegria,
E vida nova em fervor.
Bendito sejas, Senhor,
Por este dom que dá vida,
Sempre, sempre renascida,
Do teu abraço de Amor.
A diferença fundamental patente na concepção da vida entre os jovens e os idosos é a de que os jovens têm projectos, anseios, buscam a realização dos seus sonhos; os idosos têm a experiência do que efectivamente conseguiram realizar, a memória dos seus êxitos e fracassos, nem sempre condizentes com os horizontes vislumbrados na juventude. O sol poente é, assim, a luz que ilumina a realidade vivida, e aquece o coração dos que souberam construir o futuro na partilha fraterna do amor.
Perscrutai, Senhor, conhecei o meu coração,
examinai e conhecei os meus propósitos.
Vede se é errado o meu caminho,
conduzi-me pelo caminho do que é eterno.
(Salmo 139, 23 - 24)
Depois dos conflitos sociais decorrentes da situação criada pela revolução industrial e pelo consequente desenvolvimento tecnológico dos últimos séculos, surge hoje uma nova situação de conflito entre as gerações actuais.
Aos problemas laborais e à concentração do capital, a que deu lugar uma economia que elegia como objectivo principal o máximo lucro, com grande desequilíbrio de remuneração entre os factores de produção, especialmente entre o capital e o trabalho, emergiram as ideologias messiânicas de salvação terrena.
Subverteram-se os padrões tradicionais da sociedade, e, no passado século, emergiram os efeitos sócio-culturais e políticos de duas guerras mundiais.
Seguiu-se a contenção, tensa e ameaçadora, da guerra fria. Levantaram-se os movimentos de libertação dos povos colonizados, polarizando as energias bélicas das grandes potência do mundo.
Entretanto, na China e em França, a Revolução Cultural e o Maio 68 abalam toda a estrutura intelectual e moral da sociedade.
Finalmente, o desabar do muro de Berlim, após a abertura profética da "perestroika", vem desanuviar o confronto de paz podre entre os dois grande blocos do poder mundial.
Mas cedo a face da terra se viu semeada de lutas regionais, que continuam, ainda hoje, a espalhar a doença, a morte, a destruição e a fome por milhões e milhões de vítimas inocentes.
Como consequência de tudo isto, os valores em que assentava a consistência da pessoa humana foram-se esvaindo, deixando um profundo vazio nas almas, facilmente preenchido por contravalores que deixam caminho aberto a uma desenfreada corrida aos prazeres imediatos de uma vida fácil e egoísta, desumana.
Os conflitos culturais, disparados pelas novas técnicas de comunicação, aí estão a tomar lugar, na sociedade, às lutas laborais. Se estas eram violentas, aqueles são insidiosos: penetram, subvertem, destroem, aniquilam. Criam lentamente uma nova personalidade, um novo sentir, sendo a juventude o principal objectivo da conquista - o objectivo decisivo desta nova batalha pela conquista do mundo.
Os flagelos da droga e da sida, e o aumento em espiral da criminalidade, são indicadores fatídicos desta nova era, que a Política não enfrenta com eficácia, porque não pode nem sabe. O potencial de combate dos responsáveis pela governação do mundo está minado no interior, e não possui, por isso, capacidade para exercer plenamente o seu poder de decisão.
É, então, o fim?
Não!
Ao grito revolucionário do "Manifesto Comunista" de Marx e Engels - "Proletários de todos os países, uni-vos" -, que espalhou pelo mundo inteiro uma onda de revolta e de violência contra o capital e a burguesia, importa, hoje, contrapor e bradar aos ventos, com redobrado vigor:
" - Jovens de todos os países, uni-vos!".
Uni-vos e revoltai-vos!
Contra esta onda que vos avassala e destrói;
Contra a droga, que vos arruina a vida e vos conduz à morte prematura;
Contra os prazeres fáceis da vida, que embriagam e enganam;
Contra o sensualismo libertino que vos avilta e desonra;
Contra o egoísmo, que isola, e impede a convivência social com que se edifica o futuro;
Contra a perfídia dos que vos tentam cada vez mais arrastar para os requintados e nojentos atractivos da vida nocturna dos prazeres alienantes;
Contra tudo o que pretende fazer de vós instrumento de lucro, a qualquer pretexto.
Os encontros internacionais do saudoso João Paulo II, e, recentemente, do novo papa Bento XVI, com jovens de todo o mundo, são bem esse grito de alerta, que bem se desejaria ressoasse, em eco permanente, ultrapassando todas as fronteiras:
"Jovens de todos os países, uni-vos!"
Uni-vos e buscai a felicidade dos valores morais, que esta geração de educadores que tivestes e tendes vos impossibilitou e impossibilita de conhecer;
Uni-vos pela descoberta do Homem no próprio homem, deste homem que foi criado para viver no amor e na paz com os seus irmãos;
Uni-vos pela defesa da vossa própria honra e integridade contra todos os atractivos mundanos que corroem o cerne da vossa personalidade – a alma imortal que Deus vos concedeu.
Ainda é tempo! À vossa espera, está esse Deus que tentam apagar, por todos os meios, do mais íntimo de vós mesmos. Até Ele, abre-se diante de vós um caminho esplendoroso, um futuro promissor, uma felicidade tão grande que o próprio Universo não poderá conter.
Nas vossas mãos, na vossa determinação, no vosso amor - quantas vezes incompreendido e explorado -, está a força em que reside a esperança dos povos.
"O amor salva o mundo - dizia-vos João Paulo II, em Paris - constrói a sociedade, prepara a eternidade. O amor e o serviço sejam as regras primordiais da vossa vida! Aceitando seguir a Cristo - acrescentava o Santo Padre - anunciais que o caminho do amor perfeito passa pelo dom total e constante de vós mesmos".
Jovens de todos os países, uni-vos!... - e, com Cristo e a sua Igreja, sob a protecção e guia de Maria, a Mãe de toda a Esperança e Rainha da Paz, salvai este Mundo que vos perde, e, perdendo-vos, cambaleia na borda do abismo do desespero e da tragédia.
O Futuro da Humanidade está nas vossas mãos! Não deixeis que ele se perca...
Porque não há outra alternativa!
Ao ver nos jornais o caso daquela jovem mãe, prostituída e drogada, a morrer aos poucos na exclusão social do interior de um automóvel-sucata abandonado na rua... fiquei estarrecido no mais íntimo da humanidade do meu ser.
Sou culpado!
Todos somos culpados por esse e por tantos outros casos semelhantes!...
Somos viventes autómatos, embriagados e cegos pela abundância e pelo conforto de uma sociedade de opulência, indiferentes aos gemidos e aos clamores dos que vamos lançando para a geena deste mundo.
Sucata do ferro velho da vida, dentro da sucata do que já foi conforto do prazer... e, agora, é abandono em desperdício!
Na berma da rua!
Na indiferença vil dos humanos que passam... mas já não têm alma para sentir a dor alheia! Como eu!...
Morte lenta, ambulante, apoiada num toco de vassoura...
Nem direito ao conforto de uma simples muleta de pobre... ou de uma "canadiana" de mais remediado. Triste ironia de um destino perverso e macabro.
Como posso descansar no conforto do meu leito, quando no mundo há tantos cenários de desesperança?!...
Se, hoje, nos penitenciamos pelas atrocidades da história, perpetradas sacrilegamente em Teu nome, meu Deus, que fazemos nós para que, amanhã, a vergonha não caia sobre os filhos dos nossos filhos, por não termos sabido reconhecer-Te nos mais pobres e miseráveis dos nossos irmãos?
Senhor,
Ao terminar este meu dia,
no silêncio da noite onde Tu estás mais perto e atento,
peço-Te por essa pobre mãe que se vende para sobreviver...
Que se droga para esquecer o seu infortúnio...
Que caminha para a morte...
Apoiada num pau de vassoura velha...
Porque nós, seus irmãos...
Não temos a coragem de lhe dar o apoio do nosso braço...
O conforto acolhedor que já não mora em nosso coração endurecido!
Senhor,
Penso naquele homem
encontrado num contentor de lixo.
Tu não tinhas pedra onde repousar a cabeça...
Aquele homem não encontrou outro refúgio
para habitar,
no descanso de uma noite fria e chuvosa.
Já não basta a procura do sustento
remexendo nos detritos fétidos da lixeira...
É também no meio do lixo,
no contentor do lixo,
que um ser humano já se acolhe para repousar!...
Que fizeram os homens do Homem?
Do homem que Tu criaste, meu Deus;
do homem a quem deste o Teu perdão;
do Homem que Tu próprio foste e és,
elevando-o, por adopção,
à dignidade da filiação divina?
Homem-lixo,
carregado pelos homens do lixo,
pronto a ser lançado
na montureira imunda de um aterro...
ou, mais modernamente,
a ser triturado ou prensado
pela maquinaria, irracional,
de qualquer estação de tratamento
de "resíduos sólidos urbanos"!
Senhor!
Tem pena desta miséria de homem que eu sou.
Dá-me sensibilidade bastante
para ver em cada um dos meus semelhantes
a fisionomia do Teu rosto.
Ajuda-me a encontrar-Te
em todo o ser humano,
por mais miserável que seja...
Em todo o ser da Tua maravilhosa Criação,
do Teu mundo de Amor.
E se, por desgraça,
não Te reconhecer
no meio das pequenas cruzes
que me rodeiam nos meus dias,
leva-me então, pela mão,
a procurar-Te no mais próximo contentor de lixo...
...Onde os homens desta era
levantaram mais um Calvário
para que sejas de novo crucificado...
... no corpo desta humanidade virada em lixo.
Li, uma vez, numa conhecida revista de cultura geral, uma interessante história relatando o episódio de uma secretária executiva que, ao telefone, atendia uma importuna e maçadora conversa de alguém que, do outro lado da linha, despejava nos ouvidos da pobre moça todos os azedumes das suas queixas.
Enquanto ouvia o seu interlocutor, com aparente santa paciência, apenas deixando escapar uma ou outra frase curta de circunstância, para manter o contacto, a rapariga ia rabiscando algumas palavras num pequeno bloco-notas.
Intrigado com a calma demonstrada pela funcionária, o relator da história - alguém ali presente - não resistiu à curiosidade, e, pelo canto do olho, sempre lançou uma mirada ao bloco, a ver o que a rapariga ia escrevendo.
Ficou perplexo. Deparou com uma pequena litania de compreensíveis desabafos, do género: "vá para o diabo !...", "vá para o diabo!...", vá para o diabo!...".
Consta, também, que um certo professor, quando atingia o ponto de saturação perante as asneiras irritantes dos seus alunos, em vez de descarregar sobre eles toda a sua ira, dominava-se... e, dirigindo-se para junto do armário da sala, abria a porta deste, e lançava lá para dentro, baixinho, todos os impropérios que lhe bailavam na alma.
Quantas vezes, desgastados pela pressão que nos esmaga, do trabalho absorvente do dia a dia; das responsabilidades que nos limitam a liberdade de ser e de agir; das preocupações dilacerantes que cada vez mais se avolumam à nossa volta; do medo dos perigos e das doenças, enfim, de tantos e tantos motivos que hoje nos enredam a vida nas malhas da angústia, da ansiedade e das insónias, sentimos a necessidade de reparar esse estado patológico do nosso psiquismo e dos nossos nervos!... Então, procuramos refúgio na diversão de actividade, se possível, mas, frequentemente, recorremos ao consumo de fármacos que nos aliviam a tensão e nos facilitam o sono... Relaxantes.
Contudo, o essencial está em modificar as situações que nos perturbam, e isso nem sempre é fácil. Às vezes, torna-se, mesmo, uma tarefa muito difícil de conseguir.
Importa, então, enfrentar a realidade dos problemas: aprender a viver com eles, numa atitude de aceitação resignada, mas activamente esperançosa, evitando o desespero. É nessa altura que precisamos de fazer silêncio dentro do nosso íntimo, para ouvir a palavra vivificadora do Mestre:
"- Vinde a mim todos os que estais cansados sob o peso do vosso fardo e eu vos darei descanso. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para as vossas almas, pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve". (Mt 11, 28 - 30).
Entretanto o salmista, avisadamente, vai-nos sussurrando:
"Se o Senhor não constrói a casa,
em vão labutam os seus construtores;
Se o Senhor não guarda a cidade,
em vão vigiam as sentinelas." (Salmo 127).
Então Jesus disse-lhes:
... «Vinde comigo para um lugar isolado e descansai um pouco».
S. Marcos, 6 30 - 34
O título acima é de uma crónica meditativa do saudoso Pe. Eloy Pinho, na Rádio Renascença, em 20 de Junho de 1990. Por sua vez, o Pe. Eloy transcrevia esse mesmo título de uma revista espanhola de informação religiosa, que publicava um interessante dossier sobre iniciativas diversas de carácter espiritual em tempo de férias.
Férias com Deus ao fundo!...
Quem pensa, hoje, empregar o seu tempo de férias para fazer uma curta paragem retemperadora da vida do espírito?
Neste mundo materialista em que vivemos, o mundo dos computadores e da velocidade, o mundo dos telemóveis e do stress, o mundo da excitação e do prazer, o mundo do intenso e do virtual... já se não acredita na realidade do espírito - sufoca-se o alento que dele brota, ainda, nas almas simples.
Férias com Deus ao fundo!...
Com esse Deus que fala na beleza da paisagem deslumbrante; na imensidão da noite cravejada de estrelas e nas profundezas plenas de vida das águas dos oceanos; na variedade infinita das espécies da natureza; nas fantásticas obras do engenho da inteligência humana, como emanação e reflexo da ciência divina; na bondade e no amor de tantas almas generosas em sacrifício de serviço pela humanidade!
Férias com Deus ao fundo!...
No silêncio das catedrais, onde há repouso, suavidade, paz, conforto interior, felicidade.
Férias com Deus ao fundo!...
Nos momentos de oração e reflexão, longe das multidões em frenesim; numa experiência de serviço em favor dos mais desprotegidos; numa actividade cultural ou lúdica que desvaneça freimas e preocupações doentias, para que se crie espaço a uma renovada visão das realidades que nos envolvem.
Infelizmente, a maior parte de todos nós... busca avidamente férias em tumulto de multidões, férias que cansam, férias que esbanjam, férias que apenas têm como objectivo a satisfação hedonística dos sentidos, e a preocupação cultural e escultural dos corpos.
Férias em que o espírito não conta...
Senhor,
Dá a todos os homens da terra
o fascínio pelas alturas...
Dá-lhes força anímica bastante
para que acima de todos os Everests da vida,
ainda que desfigurados pela injustiça
e mutilados pela desesperança,
nesta sociedade de coração petrificado e frio,
busquem a satisfação suprema do Teu amor...
Plenamente acessível
nos cumes eternos do Teu Reino...
Mais alto... que o Everest !